segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O que é resistência velada?

Em artigo apresentado na XXX semana de iniciação científica da UFRJ, em setembro de 2008, discorri acerca da minha pesquisa sobre o ethos da resistência organizacional naquela que é a mais antiga organização de nossa civilização e também aquela dentro da qual nasceu a burocracia, a distinção entre planejamento e execução, a disciplina e a propriedade dos meios de decisão da ação coletiva: a Igreja Católica( Weber, Ensaios de Sociologia, 1968).

Meu objetivo foi contribuir para o desvelamento do ethos da resistência organizacional brasileira, baseado nas relações entre o modo de vida efetivo das massas, o comportamento efetivo dos membros da hierocracia católica (padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas) e o seu discurso. Estas relações, segundo o sociólogo Max Weber, são decisivas para a constituição do ethos cultural, em que o último é afetado pelo ethos percebido a partir do comportamento dos "virtuosos" da religião hegemônica em determinada cultura.

A pesquisa buscou identificar como os padres católicos reagiam ao longo da história da Igreja às deliberações papais das quais discordavam ou que se revelavam impraticáveis. O que constatei foi que, ao longo da história da Igreja, aqueles que tentaram abertamente a renovação carismática da Igreja sem deter o poder papal ou seu apoio tiveram de escolher entre renunciar a este propósito ( caso de Erasmo de Roterdã), ser expulsos da Igreja e excumungados( Lutero e Leonardo Boff, por exemplo) ou tiveram de aprender as líções de Pedro acerca do que chamei de resitência Velada:

"É importante dissecarmos o termo usado nesta pesquisa para definir a forma pela qual a resistência dos virtuosos católicos às divergências carismáticas tendeu a se manifestar. Resistência velada. Velado é o ato de ser iluminado por velas, estando cognitivamente ligado ao carisma religioso, buscado ou recebido através de orações e preces, iluminadas pelas chamas de velas acesas sobre o altar. Essa luz é sutil, discreta, difícil de ser percebida. Exatamente como a resistência que os virtuosos desenvolveram para contrariar as leis canônicas de que discordam ou sentem-se praticamente incapazes de cumprir. Caso alguém ouse denunciar aquela divergência, ela é negada. Exatamente como Pedro fez por três vezes, quando, no martírio de Cristo, os carrascos de Jesus perguntaram-lhe se o conhecia." ( A resistência dos virtuosos católicos à ortodoxia carismática. Semana de iniciação científica da UFRJ, 2008)

Este estudo permite novas leituras do fenômeno da preferência pelo ócio, termo cunhado por Celso Furtado para compreender como a estrutura de distribuição do trabalho no Brasil até a segunda metade do século XIX, marcada pela escravidão e pelo senhor das terras, tornou o trabalho fonte de sofrimento, uma maldição que precisava ser evitada e seus impactos na motivação do trabalhador brasileiro.

Contrapondo-se à análise de Sérgio Buarque de Holanda que via neste comportamento uma causa étnica, um espírito aventureiro típico do Português, Celso Furtado revelou como uma estrutura organizacional autocrática alienadora, incapaz de criar as condições para a satisfação das necessidades higiências, socias e existênciais do trabalhador culminaria na emergência da preferência pelo ócio, produto da desmotivação do trabalhador.

A preguiça e a malandragem, imortalizada em obras de arte da nossa literatura e música popular como Jeca Tatu de Monteiro Lobato e a ópera do Malandro de Chico Buarque de Holanda, são , possivelmente, resultados deste desenvolvimento histórico material e também dos afetos decorrentes da resistência velada dos virtuosos católicos. Estão relacionados com fatores materiais e espirituais.

Em nossa sociedade percebemos que a figura do malandro está presente no nosso inconsciente coletivo como um arquétipo do trabalhador que resiste a um trabalho que considera fonte de sofrimento, através da preguiça, que proponho que seja entendida como uma resistência velada. Certo, a elite brasileira também apresenta esse comportamento malandro e a preferência pelo ócio. Trabalha-se o mínimo necessário e apenas o suficiente para garantir o "pão nosso de cada dia".

Transformar este hábito arraigado depende de uma revolução cultural e uma revolução gerencial. Do ponto de vista cultural, um ponto de investigação prefícuo é o do impacto do crescimento das religiões neopentecostais com sua teologia da prosperidade ( Revista Mais da Folha de São Paulo- 12/07/2009), que possivelmente pode fazer com que o trabalho seja encarado de forma diferente ou que pelo menos o ethos da resistência mude, de modo que o trabalho alienado alavanque o empreendedorismo, criando-se novos negócios para fugir de um trabalho causador de sofrimento.

Do ponto vista gerencial, a resistência velada e o comportamento empreendedor são prejudiciais à organização. O primeiro reduz a produtividade. O último aumenta a competição, causa perdas de talentos e competências e aumento do custo pela redução da produtividade empresarial. Para evitá-los, cumpre-nos assumir nossa responsabilidade na criação de condições para que o trabalho deixe de se tornar fonte de sofrimento, tornando-se fonte de realização humana e social.

Cumpre-nos assumir a nossa responsabilidade administrativa e tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado por meio de uma estrutura de decisões participativa, que valorize o intraprendedorismo, o aprendizado e a ação comunicativa. Esta é uma revolução cujo agente histórico é o administrador e não podemos fugir dela, pois seu fracasso tem implicações sérias inclusive na crise niilista contemporânea, resultado de um cultura gerencial que aliena o trabalhador, oferecendo-lhe como compensação produtos que não satisfazem suas necessidades e um entretenimento escravizante.






sábado, 17 de outubro de 2009

Em busca do empreendedorismo e da estratégia empresarial progressista!

Peter Drucker, no livro Management: Tasks, Responsibilities and Practices (1973), há 36 anos atrás, anunciou os parâmetros que, na opinião do autor, constituem os três objetivos essenciais da administração: Garantir que a organização produza manufaturas e serviços úteis, relevantes socialmentes e de modo a tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado. Isto significa que a administração precisa garantir que a atividade produtiva organizacional crie valor de maneira sustentável, fazendo-o comprometido com a compensação das externalidades negativas provocadas pela atividade empresarial.

Na mesma obra, destinada a executivos e estudantes de administração, o autor aponta as duas atividades essenciais da administração, o Marketing e a inovação, além dos impactos da administração eficaz na produtividade econômica e no aumento da qualidade de vida. A maioria dos formados das mais diferentes disciplinas e especializações profissionais dependem e dependerão cada vez mais de administradores para que se realizem profissionalmente e possam concretizar sua contribuição social. Grande parte do desenvolvimento econômico depende tanto de políticas econômicas eficazes como da administração, sem a qual estas se tornam inócuas, incapazes de resultarem em serviços úteis para determinado coletivo.

Mais que isso: as políticas econômicas defendidas pelos economistas sempre serão apenas parte das ações necessárias para o progresso social. E isto porque o uso dos recursos produtivos_ capital, recursos físicos, recursos cognitivos e recursos administrativos_ só podem resultar em bens úteis, capazes de combinar geração de riqueza e qualidade de vida, se forem reunidos e aplicados adequadamente.

Quer-se dizer com isso que decisões próprias da administração como a definição do ramo de atividade da empresa, dos clientes que serão objetos das ofertas organizacionais e suas preferências, das competências, métodos e estruturas de coordenação do trabalho dentro da organização, com seus efeitos sobre o clima, a cultura e a ideologia organizacional, são igualmente decisivos para a geração de emprego, renda e o progresso social.

E o nosso país contribui para a veracidade destes argumentos da pior maneira: nossa produção industrial se orienta de maneira pobre e tímida no sentido da ampliação do poder aquisitivo das classes de renda mais baixas, nossa gestão ainda é muito paternalista, centralizada, com a atividade organizacional marcada pela baixa inovação e a predominância de respostas estratégicas imitativas.

Grandes empreendedores como Henry Ford, que tornou possível que seus operários tivessem acesso a carros antes restritos aos ricos; Rosenvald, primeiro administrador da Sears Roebuck, precursora das lojas de departamento, são raros por aqui, onde casos como o das Casas Bahia e as Lojas Renner constituem a excessão, não a regra. Pior que isso, nossas empresas precisam aprender a inovar. É um absurdo que a África tenha uma empresa , a MTN , especializada em ofertar celular e banda larga para pessoas com renda muito baixa e no Brasil seja preciso que o governo subsidie a venda de banda larga para a classe E ( The Economist, publicado na edição 556 da Carta Capital).

Para pensar em alternativas administrativas que permitam a reversão deste quadro será preciso repensar o empreendedorismo dentro da organização, o intrapreendedorismo, elemento crítico para a inovação e a eficácia empresarial. Será preciso repensar as estratégias empresariais, para que estas, orientadas pelo estudo do comportamento do consumidor e da cultura organizacional, avancem na consecução dos ambiciosos objetivos da administração.

sábado, 3 de outubro de 2009

A Objetividade das ciências humanas vai além do que pode ser quantificado!

Segundo o maior dramaturgo brasileiro de todos os tempos, Nélson Rodriguez, "só os gênios enxergam o óbvio". Cumpre-nos inferir se isto acontece de fato e suas causas. Esta reflexão se reveste de relevância decisiva quando admitimos que as soluções para os mais importantes desafios enfrentados pela humanidade no tempo presente podem ter soluções óbvias que, percebidas e implementadas com seriedade revelar-se-ão em sua criticidade para a sobrevivência e evolução da humanidade.
Observemos o caso do aquecimento global em sua relação com a emissão de monóxido de carbono. A revista Carta Capital desta semana traz artigos interessantes sobre o tema, frutos da parceria da revista com o The Economist, destacando os impactos socio-econômicos da produção não sustentável nos países pobres e emergentes, além do manifesto pela sustentabilidade global publicado na revista Nature.
Da leitura dos artigos, depreende-se que a economia interna de 20% das nações do mundo são responsáveis por metade das emissões globais. Mais, percebe-se que a sustentabilidade precisa ser uma prática que não pode se encerrar nas decisões das políticas públicas das economias desenvolvidas. Estas apoiam-se no fato dos países subdesenvolvidos, modernizados ou não, serem responsáveis pela outra metade das emissões para exigirem que parta destes a iniciativa pela redução das emissões.
Implícita nesta discussão está uma equivocada leitura do assunto. A redução das emissões não está diretamente correlacionada com a diminuição do crescimento da produção econômica. Ela exige uma transformação qualitativa nos processos produtivos contemporâneos. Precisamos e podemos produzir de maneira integrada com o ambiente natural e social. A redução das emissões globais será atingida a partir da combinação eficaz de políticas públicas, investimento do setor privado e pressão de consumidores e cidadãos.
E existe tecnologia para isso: os automóveis podem usar como combustível o hidrogênio, emitindo vapor d'água em lugar de CO²; O CO² liberado na hidrólise da água necessária para a síntese do H², potencialmente pode virar energia novamente, se desenvolvermos pesquisas que permitam aproveitá-lo como fonte de recursos para a agroindustria de produção de biomassa.
Tudo o que foi especulado acima não passa de obviedades. No entanto, o óbvio muitas vezes não pode ser deduzido de análises quantitativas supostamente objetivas limitadas à estimação de tendências derivadas de um prolongamento de resultados históricos.
Portanto, enxergar o óbvio não é mais importante do que praticá-lo e explicitá-lo. Trata-se de um produto do reconhecimento de que a mudança de paradigma, como atesta Thomaz Khun em Estrutura das Revoluções Científicas, por ser um processo de ruptura e descontinuidade, demanda uma sensibilidade imaginativa/criadora que acabam obstruídas pela rotina alienante que instrumentaliza e imobiliza saberes e inteligências em ambientes onde imperam a pretensa objetividade quantitativista, que como todo ismo acaba perdendo-se, corrompida por seu exagero.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Os vínculos associativos presentes nas equipes de alto desempenho

Sabe-se que comunidade é o tipo ideal de associação que se distingue por fundamentar-se no sentimento de pertencimento e valores compartilhados. Na sociedade, a associação humana tipifica-se pela existência de propósitos compartilhados. Enquanto o tipo societário está presente fortemente nas equipes de trabalho, a comunidade o está no fenômeno social família.

Exposto o elemento associativo essencial da família e da equipe de trabalho, cumpre observar que ambas as tipologias associativas estão potencialmente presentes em cada um desses fenômenos. Entretanto, ambos precisam ser compreendidos em suas características associativas essenciais mas também nos efeitos que a característica complementar traz na performance de cada uma destas formas de associação humana.

Podemos distinguir os seus desempenhos de maneira simples e objetiva, classificando-o como normal ou mediano, baixo ou medíocre, e alto ou excelente. Outrossim, em ambas as associações supracitadas o alto desempenho significa estar próximo da excelência coletiva, sendo um desenvolvimento a ser buscado e almejado como produto da interação dos agentes associados.

Na família, o alto desempenho é alcançado quando ela se torna não apenas uma associação marcada pela reciprocidade e o compartilhamento de valores, passando a incluir a capacidade de promover e orientar a realização pessoal e social de cada um dos ses membros. O inverso ocorre nas equipes de alto desempenho onde a excelência reside na equipe que se revelou capaz de agregar um sentimento de pertencimento àquela associação formada a partir de propósitos, objetivos compartilhados percebidos como importantes para cada uma das partes associadas.

Logo, a equipe de alto desempenho parte de uma equipe que se revelou capaz de definir objetivos e metas coerentes, compartilhadas e boas para os seus membros e que soube ir além, por meio de uma ação cooperativa fundamentada não apenas nos objetivos deliberados coletivamente como pelo sentimento de pertencimento desenvolvido.




terça-feira, 25 de agosto de 2009

A perversão do sucesso

Platão, um dos mais importantes pensadores da história da humanidade, influênciou decisivamente o comportamento ocidental. A ciência, a Filosofia e a religiosidade, ponto essencial da organização da cultura, perseguem ainda hoje o que foi proposto como ideal pelo Filósofo Grego. Por isso mesmo, é fundamental conhecermos os objetivos da obra para analisarmos como a mesma pode nos ajudar a compreender o que é ser bem sucedido.
A obra busca discutir o conceito de justiça, polemizada pelas posições de Trasímaco e Sócrates. A fim de investigar se a justiça reside no comportamento ético que busca o bem ou naquele enviesado pelo interesse, Platão reflete acerca de como deveriam ser o cárater e o comportamento dos líderes de uma sociedade justa, propondo uma pedagogia para formá-los e um conceito de felicidade para guiá-los. Faz o mesmo em relação ao que seria uma cidade injusta e compara qual das duas cidades seria mais feliz, culminando na distinção entre o sábio e o perverso.
Justiça estaria diretamente relacionada com o mérito. Dar a cada um o que lhe compete conforme suas aptidões e necessidades. Na cidade justa, o homem seria guiado por aquela que seria sua competência distintiva enquanto espécie, o intelecto; na cidade injusta, o homem seria guiado por suas paixões e impulsos irracionais. O Filósofo percebeu que por trás de toda busca por honraria, riqueza, hedonismo, consumismo, estaria uma vontade sexual, elemento que mais tarde culminaria na psicologia freudiana onde a vontade primitiva estaria ligada à sexualidade humana, definindo sua personalidade e comportamento privado e social.
Platão alocou o comportamento do justo na postura do Filósofo que se guiaria pela busca pelo conhecimento, orientado por sua origem primitiva, capaz de ligá-lo ao sumo bem, ou seja, a Deus. Para Platão, o homem temperante, governado pela razão, é também corajoso, impetuoso, justo e bom. É também o único que efetivamente possui vida, posto que prossegue seu desenvolvimento em direção à sua divindade intrínseca.
Charles Darwin, 2400 anos depois, desenvolveria uma teoria da evolução das espécies que demonstraria que o homem é o animal que melhor se adaptou ao ambiente natural terrestre, alocando-se no topo da cadeia evolutiva justamente por sua capacidade intelectiva, desenvolvida a partir de milhares de anos de seleção natural. Na pscicologia, o neofreudiano Ernest Backer, discordaria de Freud colocando a vontade humana na necessidade humana de se livrar da morte a partir da transcendência, de um ato heróico que permita que a existência humana seja reconhecida para além da sua finitude. Na teoria da motivação humana de Maslow e Herzberg, a auto-realização e a satisfação humana estariam sempre relacionadas com esta busca pela transcendência.
E tudo isso remete novamente a uma discussão acerca do significado do sucesso:
O sucesso ligado à perversão, a impulsos encerrados nos prazeres físicos, são efêmeros e insaciáveis, gerando frustração e um comportamento potencialmente prejudicial ao indivíduo e à sociedade. O sucesso associado à busca pela realização, pela construção de uma sociedade melhor, com as vontades mais profundas do indivíduo satisfeitas, estaria diretamente alocada no trabalho humano e em seus resultados socialmente reconhecidos como bons e úteis.
Pode parecer romântico, mas este é o sucesso que devemos buscar, pois ele desenvolverá nossos atributos mais distintivos e capazes de garantir nosso desenvolvimento, realização e felicidade. Assim, poderemos trocar um sentimento constante de frustração pela agradável sensação de prazer que percebemos naqueles que realizam o bom combate.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

estabilishment e Outsiders: reflexões sobre dominação e exclusão

Iniciamos uma abordagem que vai de encontro a um conceito intensamente refletido e ainda assim inesgotado: O da dominação e a exclusão. O que pode fazer uma minoria deter privilégios sociais, de oportunidade e ascenção social? Disparidades estritamente marcadas pela dificuldade de acesso de outros grupos ao ensino superior,às boas oportunidades de colocação profissional,e, mesmo quando empregados, à meios para se livrar da dependência do mercado e dos proprietários dos meios de produção.
Teriam estes apontamentos ligação com o fato do Brasil estar entre os países mais empreendedores do mundo e ao mesmo tempo com o maior índice de falências, miseráveis e marginais em suas grandes e médias cidades?De termos a segunda pior desigualdade do mundo e ainda assim termos uma populis extremamente conservadora? O entendimento destes fatos demanda uma análise social,assim como de alguns estudos e publicações.
Aprofundaremos-na observando eventos e práticas sociais,aqui entendidos como ritos de inversão.Serão eles o carnaval e a convivência na praia. A dominação consiste na dialética entre um grupo mais coeso, que o faz para se defender de outro que considera ameaçador.Trata-se de uma postura motivada pela manutenção de uma posição privilegiosa.Seja a mesma social,financeira,política, ou qualquer outra.
Algumas de suas estratégias para o mesmo é a estigmatização, percebida nas ruas a partir de inumeras colocações como àquelas que afirmam: “Mesmo ganhando na loteria,não seríamos parte deles”, “é preciso ter geito de rico”,”povo gosta de carnaval”, “pobre é igual a uma doença”, e “o pobre sente prazer em trabalhar pro rico”. Acrescente-se à isso o alienado político,ou mesmo o cidadão apolítico: conservador na medida em que mantém as coisas como estão.
Gostaria de destacar,a princípio,a evitação. Observada com bastante clareza a partir da relação “iguais mas distantes” e “juntos mas diferentes" em pesquisa do brilhante antropólogo Roberto da Mata,autor de Carnavais,malandros e heróis. No Brasil, trabalharíamos com o segundo conceito na medida em que nossa estrutura horizontal e patriarcal criaria uma “regra de ouro” , como também aponta,com semelhante maestria, Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil,em que nossa lei e suas obrigações sociais universais seriam para os iguais nunca para os desiguais: “Aos amigos tudo,aos inimigos à lei” ,atestam os parvos e marginais de nossa sociedade.Demonstração de que,dentro de uma cultura formalmente igualitária principalmente no discurso,no interior dos grupos fechados e estabelecidos prevalece valores e regras próprias como afinidade e pertencimento.
A coesão dos estabelecidos se faz pelo “condicionamento implícito”(GALBRAITH,J.K.,Anatomia do poder), do domínio de nossa comunicação de massa,do poder político,da aliança militar e econômica com o stabilishment estadunidense e de primeiro mundo. Fator que explica a sua difícil percepção,comprovando assim sua internalização em nosso inconsciente coletivo. Alguns ritos de nossa sociedade servem para reforçar ou mesmo denunciar essa imobilidade.No carnaval, a percebemos através da inversão, processo onde “é colocado um papel (ou posição social ) e inibido os outros na tentativa de resolver uma situação ambígua” cujo “objetivo é a separação dos elementos,categorias e regras que estão por um momento confundidas”já que “são experimentadas novas avenidas de relacionamento social que,cotidianamente jazem adormecidas ou são colocadas como utopias”( DaMATA,cit).
Percebemos que “as escolas de samba são um modo de dialogar com as estruturas de relações sociais vigentes na sociedade brasileira”, colocando “em foco, em close-up, elementos de uma relação” reconhecendo que “o mundo social é, antes de mais nada,humano e portanto dotado de múltiplas determinações”. Encontramos também, em parte por esses apontamentos,mas também pelas inumeras reflexões hodiurnamente presentes em nossos debates, a compreensão da urgência e necessidade da resolução de tais desencontros,de modo a corroborar ao desenvolvimento de nosso país,função social importante da qual nós,administradores,não podemos nos abster.
É oportuna a discussão a respeito da manifestação dessa realidade em nossas organizações.Em seus processos de seleção e ritos internos.Estar-se-ia adotando, nos mesmos, critérios sócio-economicos implícitos? Seriam os mesmos produtivos e bons para a empresa, a sociedade e o profissional?Estaríamos em verdade nos defendendo e impedindo o acesso de profissionais mais qualificados ao adotarmos posturas nepotistas e privilegiosas? Essa pergunta deve ser respondida todos os dias.Por todos aqueles que assumiram a responsabilidade de trabalhar pela sobrevivência e competitividade daqueles que amamos.Por todos nós que escolhemos ou fomos escolhidos pela administração .
Um abraço a todos!

sábado, 6 de junho de 2009

O líder como vanguarda progressista

Por meio de um brilhante artigo publicado no EnANPAD de 2008, prolegômeros a toda administrologia futura, Ariston Azevêdo e Paulo Sérgio Grave concluíram que a administração pode ser entendida como uma ação social virtuosa que ocorre a partir de uma organização visando uma determinada finalidade que existe fora dela, um serviço que deve ser prestado de modo que se garanta a produção de bens úteis capazes de promover o bem-estar social. A administração teria então três dimensões ou ações concomitantes em sua constituição: um ato de iniciar, um ato de mediar e um ato de gerenciar. Logo, a atividade adminstrativa precisaria ser compreendida como produto da articulação destas três esferas de ação em busca de sua virtude própria.

Dito isto, observa-se que o empreendedorismo é o conceito em uso adequado para compreender o ato de iniciar inerente à atividade administrativa. Para o compreendermos, precisamos entender o que é a liderança, conquanto a admitirmos como condição necessária para a atividade empreendedora. Ora, o ato de iniciar para ser efetivo precisa ser seguido dentro da organização, de modo que suas demais ações sociais se orientem por ele, pelo menos naquelas atividades organizacionais cuja colaboração depende o sucesso da iniciativa empreendida.

E isto nos remete a uma questão importante: a liderança gera alienação e submissão, ou emancipação e realização humana? Ou seja, qual é a ética da liderança?

Notemos inicialmente que o conceito de servir ao outro está encoberto nesta discussão. Segundo esta abordagem, o líder servidor orienta-se pelo "cliente", abrindo mão de sua subjetividade, dedicando-se de maneira puramente altruísta ao outro. Numa visão crítica, esta liderança seria do tipo autoritário no qual a dominação garantiria a emancipação do líder e a alienação do "rebanho". A autoridade carismática, por exemplo, em sua versão rotinizada, serviria para legitimar a estrutura organizacional e de autoridade escolhida pelo carisma com o intuito de preservar-se como autoridade. Essa seria a estratégia usada por neomonarcas como Fidel Castro para a sua preservação.

Karl Marx, baseado na obra de Charles Darwin( "A origem das espécies"), afirmou em O Capital que só podemos identificar a evolução de uma espécie para outra a partir da espécie superior, de modo que só podemos alcançar o progresso social a partir do conhecimento do sistema sócio-econômico mais evoluído. Deste modo, poder-se-á identificar o que precisa ser transformado e conservado de um sistema para outro para viabilizar o progresso social. Para Lênin, este seria o papel da vanguarda progressista, capaz de perceber e liderar a massa em direção ao progresso. Papel análogo corresponderia aos intelectuais de acordo com o pensamento do cientista político Antônio Gramsci.

A questão que surge é: quais os critérios que legitimariam a liderança desta vanguarda?

Aristóteles, na Metafísica, propôs a teoria da quatro causas e a distinção entre ato e potência. Potência seria o que existe como possibilidade no ser e ato seria o seu desenvolvimento, sua realização. Eis a etimologia da expressão "pessoa realizada", significando pessoa que foi capaz de transformar seus potenciais em realidade prática. Assim, o escultor ao esculpir o mármore partiria desta matéria e de uma idéia da estátua para formá-la. O mármore seria uma estátua em potência, mas apenas a ação virtuosa do escultor possibilitaria sua atualização e sua beleza consistiria na virtude do seu movimento.

As quatro causas seriam, portanto, causas materiais, eficientes, formais e finais. A primeira seria inerente à matéria a ser movimentada ou transformada, suas especificidades; a segunda inerente à eficácia da ação transformadora, causando praticamente a evolução; a terceira inerente à idéia que precisa ser atualizada e na qual a causa eficiente se orienta; e a última inerente ao fim a que se destina a transformação, a finalidade definidora de sua utilidade para a busca da felicidade humana.

Para Aristóteles, apenas um ser em ato, que atingiu a sua perfeição própria numa determinada atividade, pode orientar um ser imperfeito a fazê-lo, donde a importância do mestre e de Deus. O mestre seria o Filósofo, aquele que se libertou do mundo das aparências e das coisas sensíveis e que aprendeu a buscar a verdade intelectiva, sendo capaz de orientar o vulgo em sua busca por libertação, atualização e felicidade.

Retomando a questão progressista e admitindo que a perfeição não existe, podemos admitir que o líder seja constituído pelo portador do Insight , capaz de ver dentro e ver além para, partindo disto, propor a superação dos interditos presentes naquela forma de organização. O líder, de tipo democrático, seria um visionário, dotado de conhecimento empírico e intelectivo sobre a realidade a ser transformada. Podendo ser encarado como um mestre ou como interpreta Michel Foucault, como um igual que cuida do outro e assim cuida de si e da sua evolução.

Assim, o líder democrático, que inicialmente é parte de uma vanguarda se distingue do líder autoritário pelo compromisso com a emancipação do outro, tornando-o um igual. Este seria o critério de legitimidade da liderança: ser capaz de formar outros líderes.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pet Center Marginal corrobora hipótese sobre o empreendedorismo

Na edição deste mês, o jornal do grupo CATHO carreira & Sucesso publica a história de sucesso do empreendedor Sérgio Zimerman proprietário-administrador da Pet Center Marginal.
A questão crítica para corroborar ou refutar os argumentos contidos no artigo postado anteriormente é investigar como o empreendedor Sérgio Zimerman captou os recursos dos investidores que apoiaram a criação do seu negócio e sua relação com o capital próprio invertido na empresa. Dos trechos citados abaixo, poder-seà notar que o empreendedor não analisou a oportunidade de negócio ignorando se poderia captar os recursos necessários para explorá-la, à maneira que defende Dornellas.
Por outra, parece-me evidente que o plano de negócios, decisivo para atrair estes associados, atentou para a relação entre o capital próprio do empreendedor e o quanto poderia ser alavancado pela empresa a partir disto. Seguem abaixo cinco fatores críticos para o sucesso do empreendedor:
1. O empreendedor teve o cuidado de alinhar as estratégias produto-mercado da empresa incipiente à sua disponibilidade de capital próprio, corroborando a hipótese de que o pré-requisito mais importante para que se possa se tornar um empreendedor é a propriedade de capital, não sendo a "vocação" e/ ou o conhecimento técnico suficientes para criar as condições para viabilizar a atividade empreendedora:

"Por que resolveu apostar nesse mercado?

Ao pesquisar o mercado, cheguei à conclusão de que era um mercado saturado quantitativamente, com mais de 25 mil pequenas lojas administradas pelo dono e pela família, geralmente de uma maneira muito empírica pouco profissional. Mas, notei que havia uma carência em qualidade. Vi que era um mundo gritando por novas ideias, por ideias de impacto, que transformassem a ida ao pet shop em um passeio ao shopping, algo prazeroso para quem tivesse bichos de estimação. Nesse projeto, pude contar com o apoio de um grupo de investidores que acreditaram nas minhas ideias"

2. A análise econômico-financeira foi parte decisiva da identificação da oportunidade e do planejamento do empreendimento:

"O que você pretendia e o que desejava fazer no início da sua carreira profissional?

Quando tinha 18 anos conclui um curso técnico em edificações e pretendia trabalhar na área de construção. O engraçado é que já naquela época, com aquela idade e no auge da juventude, eu não me via trabalhando para terceiros e já sonhava com meu próprio negócio. E, como para ser meu próprio patrão precisava montar uma construtora, o que exige muito dinheiro, comecei com o que apareceu mais à mão e que não exigia, de imediato, muito capital: trabalhar com a minha namorada, hoje esposa, com animação de festa infantil. Mas, o plano Sunab dificultava a compra de bebidas para as festas, o que fez com eu abrisse uma pequena adega, do tamanho de uma garagem, o que acabou revelando o meu lado empreendedor"

3. O crescimento do seu negócio se baseou na acumulação de capital próprio:

"Sempre acreditei que a propaganda é a alma do negócio. Às vezes, o que faturávamos em uma semana, era investido em espaços na mídia."

4. O empreendedor não entrou num mercado existente para concorrer com empresas estabelecidas. Partindo de um conhecimento empírico do mercado e dos concorrentes, o empreendedor posicionou seu negócio num novo mercado, até então inexistente, realizando uma "destruição criativa":

"Como é este mercado hoje? Está aquecido? Quais são os consumidores? O que eles buscam?

Hoje, com os seus 35 milhões de cães e 15 milhões de gatos, o mercado brasileiro de pets é um gigante em números de bichos, ocupando o segundo lugar mundial do setor, atrás apenas dos Estados Unidos. Porém, ainda tem muito a crescer: é um setor que desde 2003 cresce a taxas entre 5 e 10% ao ano. Para se ter idéia, em 2007, os produtos para os bichinhos de estimação movimentaram a quantia de US$ 4,1 bilhões no país. É nada perto do faturamento mundial: só a rede de megalojas Pet Smart fatura isso sozinha por ano. Nossos consumidores são, antes de mais nada, pessoas que amam seus animais de estimação e os tratam verdadeiramente com o mesmo respeito que dão aos demais membros da família. Por esta razão estão sempre em busca do que de há de melhor para oferecer aos seus amiguinhos de quatro patas

Este mercado mudou muito nos últimos anos?

Aconteceram mudanças profundas nesse mercado nos últimos anos porque o consumidor também mudou muito, está muito mais bem informado e mais exigente. Outro fator que ajudou nessas transformações foi o relacionamento cada vez mais próximo e amoroso entre o dono e o seu animal de estimação. Hoje, o consumidor se preocupa muito mais com o mix de produtos dirigidos aos pets, sua qualidade, assim como também uma exigência maior quanto aos serviços prestados e a apresentação da loja.

O que vocês fazem para atender as necessidades desses consumidores?

Somos uma empresa de relacionamentos que procura estar o mais próximo possível dos nossos consumidores. Procuramos registrar cada cliente, criar eventos que promovam uma interação ainda maior entre esses consumidores e seus filhos, com seus pets. Chegamos a detalhes como montar um estúdio fotográfico dentro da própria loja para que o consumidor que quiser o serviço possa fazer um book especial do seu animal, com o mesmo capricho e profissionalismo com que são feitos os books das modelos profissionais. Para isso, contratamos o pioneiro fotógrafo especializado em pets. Então a nossa filosofia é esta – se o cliente pensou num serviço há duas hipóteses: ou nós já o temos implantado ou vamos implantá-lo no mais breve espaço de tempo.

Costumo dizer também que as lojas do Pet Center Marginal podem ser definidas com ‘Lojas de Relacionamentos’, pela maneira com que conduzimos o nosso negócio, sempre tendo como prioridade absoluta o relacionamento com o cliente. Parece mais um clichê comercial, dito muitas vezes com pouco ou nenhum sentido. Mas, se você passar duas ou três horas dentro de uma loja, vai entender perfeitamente o espírito disso. Não falamos em preço ou liquidação, dizemos sempre: 'venha passear na Pet Center Marginal', o que é um conceito absolutamente inovador em matéria de varejo. Não canso de repetir que conseguimos unir o charme do relacionamento da empresa pequena com as facilidades oferecidas por uma empresa grande."

5. O empreendedor observou suas competências e potencialidades, desenvolvendo-as de maneira deliberada com o intuito de se preparar para a atividade empreendedora, demonstrando que estar preparado através de um adequado planejamento e desenvolvimento de competências é um elemento decisivo para que se possa administrar a atividade empreendedora:

"Muitos empreendedores acabam se abatendo nesse momento. O que você
fez para superar essa crise?
( falência do negócio anterior em que não estava tão bem preparado e capitalizado)

Pode realmente ser muito traumática para muitos. Mas, dessa experiência, eu tirei a maior lição da minha vida: eu tinha um lado empreendedor muito forte, mas precisava desenvolver o meu lado de administrador. Daí, parti para fazer curso de Administração na Unip, seguido de um MBA de Varejo na Fia/Usp, seguidos de duas extensões internacionais de curta duração de Varejo Internacional, na Europa e Estados Unidos."

Empreender é um ato de iniciar e como tal é parte da atividade administrativa. No entanto, empreender quando entendido como a criação e gestão de um negócio próprio exige vocação, competência, um adequado planejamento, mas acima de tudo, capital. Donde se depreende que Kalecki refutou Dornellas, deixando-nos com o desafio de rever seu processo empreendedor, para que se possa efetivamente desvelar e propor um eficaz processo de criação e gestão de novas empresas.

Entrevista completa com o empreendedor Sérgio Zimerman no endereço:

http://www.catho.com.br/jcs/inputer_view.phtml?id=10760

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O capital do empreendedor

Há algum tempo atrás tive a oportunidade de conhecer o trabalho do professor José Dornellas na área de empreendedorismo, participando de um evento realizado por ele na FIRJAN. O autor participa de seminários, promove palestras, cursos, escreve livros e desenvolve tecnologias digitais voltadas para a desafiadora tarefa de melhorar o ensino e a prática empreendedora no nosso país. Dornellas admite, logo na introdução do seu livro "Empreendedorismo: transformando idéias em negócios", que é preciso compreender melhor o empreendedorismo para que possamos buscar a sua efetividade prática.
Embora o professor esteja realizando uma grande contribuição à promoção e ao desenvolvimento do empreendedorismo no nosso país, em alguns momentos seus argumentos recorrem a imperativos comportamentais( vide o meu artigo A irrelevância do Pop Management), pecando por apelar para as emoções e a vaidade dos leitores, deixando-os com a falsa impressão de que precisam assumir um suposto "comportamento empreendedor" para alcançarem o sucesso em seus negócios. Sustenta seu argumento baseado em inadequada evidência empírica e elaboração teórica pouco consistente, mas bastante convincente, apontando a necessidade de que se cumpra burocraticamente o processo empreendedor que o autor apresenta, na ordem que ele apresenta, para se tornar um empreendedor de sucesso.
O seu processo começa com a identificação de oportunidades, prossegue com a elaboração do plano de negócios, passa pela busca por financiamento e culmina no gerenciamento do negócio. Ao propor seu processo empreendedor, Dornellas ignora que a questão financeira é parte decisiva da identificação da oportunidade e da própria elaboração do plano de negócios, devendo ser realizada ao mesmo tempo em que se busca viabilizar a oportunidade percebida.
Outro ponto complicado na sua elaboração é que o autor apresenta um estudo em que o Brasil se apresenta como o nono país em atividade empreendora ( percentual da população adulta dona do seu próprio negócio). No entanto os primeiros colocados são países pouco expressivos no cenário econômico internacional como Peru, Colômbia, Jamaica e Filipinas. Conclui-se, portanto, que ter uma alta atividade empreendora não significa que temos uma atividade empreendora eficaz e na medida adequada para a promoção do nosso desenvolvimento econômico e social.
A explicação que justifica estas considerações, podem ser encontradas na obra do economista Polonês Kalecki: Teoria da Dinâmica Econômica . Engenheiro de formação, ex- professor de economia em Cambridge, Oxford, secretário da ONU e um dos grandes influenciadores do pensamento econômico dos integrantes da CEPAL (comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o autor concluiu que a capacidade empresarial é decisiva para definir a capacidade empreendora. E isto porque o risco inerente aos investimentos em novos negócios só podem ser assumidos por aqueles que possuem um volume de capital próprio e uma perspectiva de retorno sobre o investimento suficientes para atrair capital de risco:
"Muitos economistas supõem, pelo menos em suas teorias abstratas, um estado de democracia econômica onde qualquer pessoa com o dom da habilidade empresarial pode obter capital para inciar um negócio. Esse quadro das atividades do empresário 'puro' (empreendedor) não é, para pôr a coisa em termos modestos, realista. O pré-requisito mais importante para alguém se tornar empresário é a propriedade de capital" (KALECKI)
Dito isto, a relevância de se levantar recursos e sócios capitalistas para que se possa iniciar um novo negócio se mostra decisiva, ao contrário do que pensa o professor. Presentemente, muitas pequenas empresas de alta tecnologia e bastante capitalizadas fazem parte do processo de inovação e criação de valor empresarial. Trata-se do modelo de produção toyotista, onde várias empresas pequenas se articulam em trono de uma empresa mãe , comportando-se como se fossem uma única unidade empresarial extremamente inovadora e competitiva.
Portanto, um dos caminhos para o empreendorismo entendido como a criação de novos negócios é a associação de ex-funcionários com pesquisadores e empresas grandes em determinada cadeia produtiva. Outro caminho é buscar recursos para efetivar a criação de inovações produtivas em mercados novos, realizando a famosa "destruição criativa" de Joseph Schumpeter. Em ambos, é decisivo conhecer o mercado, a indústria, o negócio e o produto em si. É decisivo identificar barreiras à entrada, necessidades latentes dos consumidores e o seu valor. As competências centrais e demais recursos necessários para a criação, comunicação e entrega do valor proposto. E fazê-lo comparando com a sua possibilidade de reuní-los e alocá-los de maneira lucrativa e com seus riscos minimizados por um adequado montante de capital.
Infelizmente, empreender é mais complicado do que seguir cartilhas e manuais. Isso eu vivenciei quando tentei montar um negócio de brinquedos de madeira e acabei endividado e frustrado. E acho que isso inspirou Platão também:
"Há mais coisas entre o céu e a terra do que pregam a nossa vã literatura pop[Filosofia]"( versão original entre colchetes)

terça-feira, 5 de maio de 2009

O dia em que Ronaldo destronou Pelé

"Hoje, conhecedor das minhas sete vidas, já não sei mais se me exijo à altura do que desejo. Sei apenas que me espero na medida exata do que eu preciso."

Tom Coelho. Do preâmbulo de "Sete Vidas", seu livro mais recente.

O LEESE procura por heróis. Confessamos esta opção desde a nossa primeira postagem quando citamos Weber e outras influências como o movimento Pau-Brasil de O. Andrade. Pouco depois, analisamos e destacamos Gisele Bundchen, nossa musa. Elencamos algumas obras cujo conteúdo converge com o que propomos para uma literatura pop relevante. Nosso objetivo é encontrar referências que afetem nossa motivação, dotando-nos da autoconfiança necessária para que possamos buscar a nossa felicidade e qualidade de vida no trabalho e nas nossas outras seis vidas, cotidianamente, "na medida exata do que precisamos".

No entanto, parece-me importante discorrer com pouco mais de profundidade sobre este herói em sentido "sóbrio da palavra" (MAX WEBER, citado na primeira postagem) que tanto procuramos. Não vou citar os arquéticos de Jung nem mesmo qualquer outro intelectual que tenha tido contato na universidade. Basear-me-ei num craque da bola, num craque da dramarturgia e em dois craques da literatura pop. Estes heróis serão investigados e, nas suas obras, desvelaremos o tal heroísmo sóbrio, se é que o mesmo existe.

Nélson Rodriguez será importante não apenas por ser um dos nossos maiores dramaturgos e cronistas esportivos, mas principalmente por ter-nos revelado a majestade de Pelé. No Brasil que se modernizava e tentava se livrar do estigma do subdesenvolvimento, de país agrário, escravagista e incivilizado; Nélson Rodriguez percebeu na elegância e coragem do Rei a referência necessária para que pudéssemos superar nosso "complexo de vira-latas". O Herói de Nélson Rodriguez, no entanto, se tornou "unanimidade burra", o ícone do inatingível e deixou de ser uma referência prática. A sua perfeição o tornara sobre-humano. A ponto do próprio Pelé passar a distinguir o Édson Arantes do Nascimento, o homem, do mito criado em torno de si na figura do Rei do Futebol.

Tom Coelho, que conheci prestando concurso para a PETROBRAS, ocasião em que seu texto foi usado para as questões da prova de Português, escreveu um bom artigo sobre o heroísmo: " Sobre heróis e mitos". A partir dele e do livro de Augusto Cury "Nunca desista dos seus sonhos", pode-se perceber que o herói, o mito, para que seja analisado sobriamente, tornando-se uma referência inspiradora, precisa ser martelado como fez Nietzche. Precisamos destruir suas estátuas de bronze, tinta e papel para observar como eles se constituíram. O quanto pereceram, sofreram e erraram até que encontraram o caminho que os conduziriam à alegria, às vitórias, ao que entendemos atualmente como "sucesso". Até que alcançaram a sabedoria necessária para os conduzir à felicidade, à perfeição própria deste herói.

E neste exato momento acrescentamos Ronaldo. Confesso que muito custou a constatação que farei. Ronaldo é um jogador dentuço, imperfeito, que errou em diversos momentos da carreira e ainda sempre foi apontado como o sucessor de Pelé. Resisti o quanto pude a este sacrilégio, mas não posso deixar de afirmar que entre a mitologia morta que existe em torno de Pelé e os feitos do Ronaldo, os deste último já o credenciam como nosso maior herói. A pátria de chuteiras clama por Ronaldo.

E Ronaldo realmente fez por merecer. Superou diversos momentos de dificuldade. Duas cirurgias no joelho, dois casamentos, diversos romances conturbados... Meses fora de forma e sem jogar. Quando tudo parecia dar errado, deu certo. Ronaldo voltou a jogar, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, como um legítimo vira-lata!

O mesmo vira-lata que tentaram destruir, estigmatizar. Quando deram sua carreira por encerrada, ele resistiu e acreditou quando a maioria o condenou e abandonou. Superou os piores prognósticos. Agiu na verdade como nós fazemos cotidianamente quando resistimos e continuamos buscando nossa felicidade mesmo tendo que superar as mazelas advindas de 500 anos de exclusão social, intolerância, corrupção, serviços públicos mal ofertados, falta de incentivo ao nosso desenvolvimento econômico, social, pessoal e todos os interditos que nossa sociedade nos oferece como desafios que precisam ser superados.

Ronaldinho é o fenômeno. O herói que destronou Pelé no dia em que lhe mostrou o heroísmo próprio de cada brasileiro, nos fazendo orgulhar por ser o que somos. Não precisamos ser o que os outros acham que devemos ser, mas aquilo que nós percebemos que precisamos ser. Este é o caminho revelado por Ronaldo, o ídolo do nosso laboratório!
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

A efetiva relação entre alienação e produtividade

Desde que Karl Marx desenvolveu sua teoria do valor (Manuscritos Econômico-Filosóficos, 1844 e O Capital, 1867) a questão da alienação em sua relação com a produtividade se tornou objeto de polêmica e investigação. Segundo o pensador, a produtividade empresarial seria produto de um trabalho alienado onde a separação do trabalhador do produto do seu trabalho garantiria os lucros (ou mais-valia) do capitalista. Exproriar os expropriadores e acabar com o capitalismo passaram a ser o objetivo recomendado aos trabalhadores, ainda que o autor reconhecesse os significativos avanços acarretados pelo desenvolvimento econômico capitalista em termos de inovação, produtividade e distribuição de renda.

Marx esclareceu que o capitalismo é um avanço em relação aos sistemas econômicos anteriores, argumentando que seu desenvolvimento traz, em germe, o sistema que o sucederá, sempre na expectativa de que este seja o sistema socialista que idealizara. A Teoria marxista do valor, inspirada no pensamento do economista David Ricardo, parte da constatação de que todo capital têm origem no trabalho e que, portanto, apenas a produtividade decorrente do trabalho deve ser remunerada todo o mais sendo roubo (1867).

Podemos perceber nestes apontamentos que (1) Marx concordava com a afirmação de Adam Smith (1776) de que a propriedade decorrente do trabalho é legítima e (2) que o materialismo histórico, metodologia de pesquisa desenvolvida por Marx a partir de uma crítica de Hegel (1844), levou o autor a concluir sobre a mais-valia não porque fosse absolutamente contra a remuneração obtida através da acumulação do trabalho humano em Capital, mas porque sua pesquisa histórica demonstrou que tal acumulação decorreu da expropriação do trabalhador e não da acumulação do trabalhador ( Acumulação primitiva do capital – CapXXV do livro 1 de O Capital).

Existe uma concepção filosófico-social de alienação em sua relação com a produção que complementa e aprofunda o pensamento exposto. Trata-se da concepção weberiana e aristotélica de alienação. Em Aristóteles, alienado é tudo aquilo que é forçado, ou seja, o que vêm de fora do sujeito, uma concepção de alienação muito mais profunda que aquela que a reduz à sua dimensão concreta. Weber (1963) aponta que a burocracia acarreta no aprisionamento da subjetividade uma vez que encerra o trabalho, fonte de emancipação e projeção da subjetividade humana, de acordo com as normas e regras determinadas pela organização burocrática racional e eficiente, orientada pelas decisões dos seus dirigentes. Weber percebe que o estado socialista nem acaba com a Mais-valia como aprofunda a rotinização da vida em sua forma mais eficiente, a burocracia. Ou seja, o socialismo científico em sua versão soviética aprofunda a alienação.

A burocracia está associada à lucratividade empresarial na sua relação com a eficiência, de modo que sua racionalidade permitiu o aumento da produtividade do trabalho rotinizado, proporcionando, no campo econômico, um indiscutível aumento da geração de riqueza e da distribuição de renda. Presentemente, no entanto, a economia da inovação insere o capitalismo numa nova etapa, na qual o recurso produtivo mais relevante se tornou o capital na forma de conhecimento e resultado da criatividade e inovação tecnológica. Deste modo, percebemos que o trabalho intelectual, da chamada classe média, se tornou o principal promotor do desenvolvimento econômico de modo que a organização burocrática se tornou desfuncional e anacrônica. Ora, o trabalho criativo e a inovação produtiva foram sufocados pela burocracia, fazendo com que economistas, administradores, filósofos e cientistas sociais buscassem maneiras de conciliar produtividade com a realização do trabalhador. Como exemplos têm-se Peter Drucker, Joseph Schumpeter, Bachelard e Domenico de Masi.

Atualmente, o trabalho precisa fomentar a inovação através de uma estrutura organizacional flexível e orgânica (MINTZBERG, Henry. Criando organizações eficazes, 2003), e na qual a subjetividade e o trabalho consciente do trabalhador se tornaram decisivos para a produtividade empresarial. Ou seja, no presente, o trabalho alienado é improdutivo e tornar o trabalhador produtivo e realizado se tornou o objetivo da organização produtiva e todos nós. E isto significa que, na contemporaneidade, o trabalho alienado está condenado à ineficácia, exigindo dos administradores e líderes empresariais competência para garantir a emancipação e realização do trabalhador, tornando-os produtivos, lucrativos, motivados e felizes.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Metafísica da inovação tecnológica

A capacidade de previsão e sua relação com a administração estratégica é tema de calorosos debates entre praticantes e pesquisadores da área. Existem duas grandes correntes de pensamento: a incremental, cujo grande expoente é o pesquisador Henry Mintzberg, que enfatiza a intuição e o autocontrole, acreditando que sistemas de planejamento estratégico inibem a criatividade e tornam a organização incapaz de inovar e agir para efetivar sua relevância e eficácia; e a "programadora", que enfatiza o desenvolvimento de tecnologias de análise e planejamento estratégico. Entre os seus grandes expoentes estão os pesquisadores Igor Ansoff e Michael Porter.

Esta última corrente de pensamento se baseia na previsão, considerada impossível pelos incrementalistas. Elemento ignorado em suas críticas é a definição de previsão como prognóstico ambiental circusncrito a determinantes qualitativos, presente na obra de Peter Drucker: "Uma era de descontinuidade". Para o autor, prever significa identificar o que precisa ser feito hoje a fim de construir um futuro desejado. Prever, portanto, não é um exercício de adivinhação, mas de análise dos elementos críticos para o sucesso empresarial.

Dito isto, levanto aqui algumas considerações que, creio, podem ajudar a orientar as análises que almejem alcançar os resultados imaginados por Drucker e perseguidos pelos administradores estratégicos "programadores":

1. A organização, e não apenas seus líderes, precisam aprender a servir com eficácia. E isso significa que ela precisa ser capaz de identificar os desejos dos seus clientes e satisfazê-los não como se estes pudessem sê-lo de uma única maneira, mas compreendendo que há mais de uma maneira certa para satisfazer uma vontade percebida dos seus clientes.

2. Primeira implicação: a organização satisfaz estes desejos com o seu serviço, ou seja, com sua visão. Esta visão é uma alternativa proposta para satisfazê-lo e sua identificação depende de permitirmos que o trabalhador inove e enriqueça suas funções com a sua subjetividade.

3. Segunda implicação: Os sistemas de planejamento e controle precisam atentar não apenas para a estratégia produto-mercado da empresa, mas também à sua estratégia tecnológica e elas precisam ser coerentes com a sua perspectiva estratégica.

4. Admitida esta coerência, os sistemas de planejamento e controle precisam estimular a previsão e a inovação. E, como foi dito de outra maneira, isto depende do intrapreendedorismo dos seus funcionários. O intraprendedorismo é o ato do profissional de empreender dentro da empresa que trabalha, criando novas tecnológias, métodos e produtos. Ou seja, enriquecendo suas funções.

5. Primeira implicação: O orçamento de capital talvez seja a única tecnologia de administração estratégica presente que não trata o enriquecimento de cargos como um erro.

6.Segunda implicação: aproximar as correntes incrementais e programadoras é decisiva para alcançarmos estes resultados. Ora, o intrapreneurismo acarreta em estratégias emergentes.

7.Terceira implicação: Nossos profissioanis não são preparados por nossas universidades para serem intrapreendedores. Formamos burocratas, cumpridores de ordens incapazes de contribuir proativamente à eficácia empresarial.
Talvez este seja o caminho: eliminar a falsa contradição entre planejamento e inovação, através de uma absorção crítica das tecnologias de planejamento estratégico. Sobre este tema, escreverei oportunamente.
Um grande abraço a todos!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Boa leitura Pop é possível!!!

Para aqueles que leram "A relevância do Pop Management", segue a recomendação de algumas obras que conseguem atingir os objetivos propostos para a literatura Pop naquele artigo:
Qual é a sua obra? de Mário Sérgio Cortella é um livro que gostei muito, onde o autor usa conceitos filosóficos em reflexões em torno da ética, do trabalho e da liderança. Contribui para que possamos identificar e nos preparar para realizar uma obra própria e autêntica, no espírito presente na maioria das postagens. Sua linguagem é simples e substantiva, competência nem um pouco trivial. Principalmente em se tratando de um Filósofo.
Nunca desista dos seus sonhos de Augusto Cury não é propriamente um Pop Management, mas um livro enquadrado como de auto-ajuda, classe de livros também marcada por muito preconceito e obras mal-feitas e alienantes. Augusto Cury consegue comunicar importantes questões psicanalíticas, usando como exemplo a história de sucesso de grandes líderes da humanidade, nos incentivando e ajudando a realizar os nossos sonhos e ter uma existência feliz. Ainda consegue superar algumas limitações presentes nas obras filosóficas e teológicas que fundamentam a busca da felicidade desde a Idade Antiga, mantendo a linguagem direta, simples, embora seja um pouco redundante como é típico na literatura Pop.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A sorte e o sucesso empresarial

Gostaria de dividir com meus colegas algumas impressões, acúmulos e reflexões sobre as relações entre a sorte e o sucesso empresarial. Observo que muitas das vezes esta relação é usada de maneira oportunista, ora numa tentava de minimizar o mérito de uma pessoa feliz e, portanto, bem-sucedida, supondo que o sucesso seja possível sem a virtude própria para a realização de cada atividade humana; ora para reduzir o impacto das variáveis exógenas que concorrem para o sucesso profissional, como se tais elementos não fossem decisivos para tal.
Desde Aristóteles, ainda na Idade Antiga, a Sorte foi considerada elemento decisivo na busca da felicidade. O Filósofo admitiu que, sem sorte, mesmo o mais virtuoso dos homens jamais alcançaria a felicidade, lembrando que, para o autor, isso significaria ser capaz de transformar em ato nossas potencialidades, focando naquelas capazes de gerarem as boas obras, servindo ao bem-estar geral e à satisfação pessoal.
Outro importante pensador, Nicolai Maquiavel, lembrado sempre pela literatura Pop Management pelo seu livro O Princípe, texto que marca a inauguração da Ciência Política como disciplina científica, estudou as causas que concorriam para a eficácia na administração pública realizada pelos princípes e concluiu que ela dependia da sua Virtude e da sua Sorte ao conduzir os negócios do Estado.
Paulo Coelho, no livro O Diário de um mago, recorre à sorte quando argumenta que "quando se está travando o bom combate o universo conspira a seu favor". Podemos perceber uma reminiscência cristã também em ditados populares entre executivos bem-sucedidos: "quanto mais trabalho, mais sorte eu tenho";"Deus ajuda quem cedo madruga". Com forte influência da ética protestante, o mundo corporativo incorpora a crença cristã segunda a qual, a obra, quando é boa, conta com a graça divina porque é produto da comunhão entre o Homem e Deus. Portanto, Ele ajuda quem "cedo madruga" desde que se esteja fazendo-o em conformidade com o bom combate, em direção à construção de algo bom.
O que se pode deduzir destes argumentos: teológicos, filosóficos, científicos e derivados da experiência prática de homens felizes em suas atividades?
1. Acredito que tais argumentos permitem concluir que a Sorte está ligada ao conceito de oportunidade. Ou seja, o ambiente geral precisa oferecer as condições que tornem possível a realização de uma determinada obra, entendida aqui como um bem que se prolonga para além de uma determinada ação, seja este bem algo concreto como um produto ou uma família; seja ele intangível como um serviço ou valor.
2. De fato, sem sorte pode-se não ser bem- sucedido mesmo estando bem preparado e dotado de um propósito consistente. No entanto, saber identificar e criar oportunidades faz parte da virtude necessária ao sucesso profissional, de modo que, saber analisar o ambiente, destacando os caminhos possíveis daqueles impraticáveis ou com baixa probabilidade de sucesso é muitas vezes a causa do fracasso de profissionais competentes mas que não sabem aplicá-las de maneira relevante e eficaz.
3. O desenvolvimento econômico-social e a felicidade humana depende da nossa virtude individual mas também da capacidade social/empresarial de construir um ambiente propício para ela. Logo, a qualidade de vida no trabalho, a remuneração justa, o desenvolvimento de metodologias de gestão coerentes e alinhadas com a nossa cultura, a implementação de uma cultura efetiva de qualidade nas empresas, e outros importantes elementos como os citados, devem ser vistos como críticos para a eficácia empresarial posto que a tornam possível, mas jamais devem ser consideradas como condições suficientes para tal.
Na economia autores como Adam Smith, Alfred D. Chandler Jr e Schumpeter, destacaram a importância da identificação e criação de oportunidades para a geração de riqueza, o desenvolvimento econômico e a eficácia empresarial. Na administração, a análise SWOT, a análise da indústria e da concorrência e outras metodologias desenvolvidas por consultores proeminentes como Michael Porter e o BCP Consulting Group, evoluem em direção à definição "certa" do negócio empresarial, capaz de garantir lucratividade e bem-estar como enfatizou Drucker.
Cabe aos nossos administradores a criação das oportunidades, ou seja, da Sorte, e aos profissionais aproveitá-las eficazmente. Na teoria parece trivial, mas o que você e sua empresa estão fazendo para superar os desafios práticos para implementá-los?

A motivação e o homem feliz

No meu último artigo,“motivação e amor”, comuniquei algumas reflexões sobre a motivação humana, procurando mostrar a relação entre a motivação, o ágape ou amor divino e o propósito, além de questionar a possibilidade efetiva da motivação “extrínseca”. Destaquei, portanto, a reminiscência teológica presente no seu significado corporativo, apresentando sua relação com o propósito, sem no entanto me ater a ela e a suas reminiscências últimas. Pretendo aprofundar melhor a base conceitual utilizada naquele artigo.
Ao contrário do que pode parecer, a relação entre o homem feliz, a ação humana e o ágape não surgiram no cristianismo, mas emergem do conceito de felicidade humana definido por Aristóteles como a referência para a sua ética do bem. Hodiernamente, quando se fala em ética pensa-se em um conjunto de regras e deveres e quando o objeto é a filosofia, pensa-se em reflexões encerradas no plano das idéias rejeitando a prática e mesmo opondo-se a ela.
Aristóteles não apenas contradiz estes conceitos como a própria idéia de felicidade e prazer como entendemos hoje. Quando falamos em “sermos felizes numa ação”, como em “O grupo garantia está sendo feliz ao estender a cultura meritocrática e competitiva da Ambev para toda a Inbev” e “a decisão da Fundação gestora da Varig de escorar sua lucratividade no protecionismo governamental foi infeliz”, estamos usando a definição aristotélica de felicidade: agir praticamente buscando alcançar os apetites humanos, satisfazendo nossas necessidades de auto-realização ou necessidades espirituais, desenvolvendo nossas qualidades essenciais ou competências distintivas e alcançando o sumo prazer, o mais completo prazer, único capaz de formar um “Homem feliz”, uma vez que não está limitado pelos incompletos prazeres do corpo, mas relaciona-se às necessidades preementes ao nosso ser.
Decorre das reflexões aristotélicas que o propósito é o apetite deliberado, isto é, uma Vontade humana de gerar uma boa obra, acompanhada de uma deliberação racional capaz de ajustar praticamente meios e fins de maneira coerente e virtuosa, tal que, além de meritória, será sábia, não permitindo o excesso ou a falta quantitativa nas ações que conduzirão ao sucesso e à felicidade, de modo a se formarem os hábitos e os costumes que tornarão o homem feliz e bem sucedido.
No que se refere à aplicação destes conceitos à gestão organizacional e à motivação no trabalho, o objeto deste artigo contribui para a superação do desafio gerencial acarretado pela necessidade de tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado. Suponho que precisamos fazê-lo nos concentrando nas tarefas, que tanto precisam ser realizadas como enriquecidas para que se alinhem ao propósito do profissional e a sua trajetória de carreira, emergindo significados intracorporativos convergentes e a motivação intrínseca relativa ao trabalho demandado pela organização; condições necessárias para o cumprimento da missão organizacional e a obtenção da lucratividade que tanto buscamos como precisamos.

Motivação e Amor

Tenho lido alguns dos artigos publicados sobre o tema motivação e estou cada vez mais convencido de que muitos deles baseiam-se numa interpretação equivocada do seu significado. Muitos deles buscam-no em sua etimologia ou semântica, quando deveriam buscá-lo no seu significado cultural.
Quero dizer com isso que a palavra motivação é usada no ambiente organizacional com significado específico e é nele que devemos buscar a sua compreensão, sob o risco de apresentarmos programas e políticas de motivação ineficazes por fundamentarem-se em premissas equivocadas.
Primeiro : ação, segundo Max Weber ( Economia e Sociedade), é a "conduta humana dotada de sentido", seja esse sentido consciente ou não. Logo, afirmar que motivação é atribuir um "motivo para a ação", é um equívoco derivado de leituras apressadas, feitas em "minutos". O motivo para a ação é uma redundância justamente porque ação é a conduta humana dotada de motivo.
Entretanto, quando usamos o termo "motivado" em gestão, não estamos procurando identificar os motivos ou o significado de determinada conduta humana. Estamos nos referindo a um sentimento que encerra o sujeito durante sua ação, fazendo-o comprometer-se com sua efetividade. Recorro ao termo Ágape, usado por Paulo Coelho (Diário de um mago e O alquimista) e também por Weber( Ensaios de Sociologia), para argumentar que a sensação que queremos identificar quando nos referimos à "motivação dos funcionários" é o ágape.
Ágape é um tipo de amor: o amor transcendental. Não é o amor faternal ou o amor conjugal. Ágape é o amor que sentimos quando atuamos em comunhão em busca da realização de uma obra e surge principalmente quando agimos com propósito. O Ágape é um tipo de amor muito discutido nas seitas e Igrejas por relacionar-se com o amor que acreditam que Deus espera dos homens: àquele que faz com que realizemos obras boas, em conformidade com sua Vontade.
Para nós, administradores, é importante refletirmos que tipo de conclusão essa nova forma de interpretar o significado da motivação pode acarretar em nossos modelos teóricos e programas de ação.
1. A motivação extrínseca, àquela acarretada por estímulos externos do tipo recompensa e punição, são mesmo capazes de gerar motivação? Caso contrário, como podemos então falar em motivação extrínseca?
2. A motivação intrínseca têm de estar ligada ao próposito: da organização e do trabalhador.
Isso me lembra Peter Drucker ( Introdução à administração), quando afirma que um dos objetivos da administração eficaz é tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado. Precisamos deliberar o que é propósito e como alinhar a misão e a visão organizacional à carreira projetada para si por seus profissionais, ao trabalho desempenhado dentro dela e suas perspectivas de realização humana e inovação, e à imagem construída pela empresa em seu interior .
É assim que poderemos criar o ambiente propício ao trabalho motivado, com seus ganhos em produtividade e inovação, principalmente no ambiente hodierno, marcado pela competição baseada na destruição criativa, no intrapreneurship e na aprendizagem organizacional. Não será através de cenouras e porretes; prêmios em dinheiro ou status e ameaças de demissão, que deixaremos nossos profissionais motivados, mas alinhando seus propósitos existênciais com os propósitos empresariais.

domingo, 11 de maio de 2008

Reflexões sobre eficiência absoluta e eficiência relativa

A física contemporânea com sua teoria da relatividade, pode ser uma interessante metáfora para interpretar os efeitos da revolução tecnológica e seus ganhos em eficiência e produtividade na disponibilização de tempo ocioso para a humanidade.
A teoria da relatividade geral e a descoberta dos buracos negros nos mostram que a própria velocidade, quando atinge um determinado limite como a velocidade da luz, além de gerar um campo gravitacional, acarreta uma curvatura no espaço:
"Einstein mostrou que a passagem do tempo e as medidas de distância não são quantidades absolutas. Dependem do movimento relativo entre observadores. Um relógio em movimento bate mais devagar do que um em repouso, e uma régua em movimento terá um cumprimento menor que o de outra em repouso. Não percebemos isso porque os fenômenos relativísticos só se manifestam a velocidades próximas às da luz ( 300 mil quilômetros por segundo). Mas se um trem fosse capaz de andar a 180 mil quilômetros por hora, um relógio que marcasse uma hora no trem, marcaria uma hora e quinze minutos na estação(...)
Um movimento acelerado pode imitar os efeitos da força gravitacional. O mesmo puxão que sentimos ao acelerar um carro pode ser provocado pela súbita colocação de uma enorme massa atrás do carro, que nos atrairia gravitacionalmente em sua direção(...)
Assim como uma bola de chumbo deforma sua superfície, a presença de matéria deforma a curvatura do espaço. Objetos em movimento nesse espaço terão suas trajetórias alteradas, tal como bolas de gude no colchão deformado. E, como o tempo e o espaço estão intimamente ligados em relatividade, a presença de matéria deforma a passagem do tempo. Em relatividade geral, o espaço-tempo torna-se deformável pela presença de matéria." ( Marcelo Gleiser. Micro e macro)
De maneira análoga, se o Flash atingisse uma velocidade muito grande, além de gerar um campo gravitacional em torno de si como acontece nas revistas em quadrinhos, o seu ganho de tempo absoluto decorrente de sua supervelocidade perder-se-ia em termos relativos, pelo menos em parte, devido ao seu efeito na curvatura espaço-tempo.
Isto significa que a velocidades extremamente altas ou na proximidade de buracos negros ou de minhocas( pontes que ligam pontos disktantes no espaço-tempo dentro do mesmo universo), o tempo para quem está dentro dos seus limites passa mais rapidamente do que para quem está fora. Ou seja, um ano para quem está dentro será equivalente a muito mais que um ano para quem está fora. Mas, o que isto pode nos permitir interpretar em termos da revolução tecnológica?
Observem que os limites dos buracos negros ou velocidades muito grandes acarretam no surgimento de uma espécie de externalidade: os ganhos de eficiência absolutas, dentro, perdem-se em termos realtivos, para quem está fora. Quero propor com isso que, os ganhos de eficiência que, no limite, deveriam disponibilizar tempo livre para a humanidade produzem uma externalidade, maior demanda produtiva, que possuem um ponto ótimo.
Voltando ao Flash. Se ele quisesse usar sua supervelocidade para montar um relógio, ele teria um ponto ótimo no qual se ele passasse, seus ganhos em tempo absoluto para montar o relógio rapidamente, perder-se-iam para quem o observa. Ele poderia montar o relógio em poucos segundos, mas a externalidade que sua supervelocidade acarretaria na curvatura do espaço-tempo faria com que, para nós, o Flash tivesse levado horas!
Com isso, concluo que a eficiência acarretada pela revolução tecnológica também possui um ponto ótimo, que talvez já tenha sido ultrapassado. Conseguimos maior eficiência, se comunicar em velocidades quase instantâneas com qualquer parte do mundo, mas a externalidade que este ganho acarretou: exigências maiores em termos de comunicação, deslocamento e produção; fizeram com que nossa capacidade de produzir de maneira eficiente, ou seja, exigindo menos tempo relativo de nosso trabalho e disponibilizando tempo da humanidade para ações sociais não ligadas à produção de bens e serviços, acabasse diminuindo!
O tempo para a produzir uma unidade de qualquer bem ou serviço pode ter diminuído, mas o tempo que dedicamos à produção de bens e serviços aumentou. O ponto ótimo dessa relação pode ter sido ultrapassado, sugerindo que maiores ganhos em eficiência serão incapazes de liberar parte de nosso tempo para outras atividades como a vida em família, em clubes, no bairro,etc. Este é o paradoxo da revolução tecnológica que a metáfora da curvatura do espaço-tempo nos permite perceber: Maior eficiência não necessariamente poupará nosso recurso mais escasso, nosso tempo!
Abraços!

terça-feira, 29 de abril de 2008

A relevância do Pop Management

Da mesma forma que a literatura Pop em administração apresenta-se como instrumento de alienação e dominação, também pode ser percebido ou proposto de maneira contrária. Essa ambiguidade é tipíca da abordagem interprativa das ciências da cultura, ou holismo metodológico, na qual o mesmo objeto pode ter tantas interpretações quantos forem os valores e os fins aos quais estiverem relacionados. A diferença básica será analítica, uma vez que diferentes perspectivas valorativas ou de finalidades acarretarão diferentes abordagens. O que no caso da literatura Pop Management deve ser entendido como uma alteração em seu modelo e apresentação.
A literatura Pop pode apresentar-se como uma hipotética superação de uma organização e produção de conhecimento equivocada e anacrônica. Hodiernamente, observa-se, em todo o mundo, um debate acerca do papel da Universidade e da Ciência no terceiro milênio. Na própria UFRJ, onde estudo, debates acerca da reforma da instituição desenrolam-se desde a década de 90. A essência da crise universitária contemporânea está no seu distanciamento social. Quero dizer com isso que a universidade perdeu, ou pelo menos viu limitada, sua capacidade de organização da cultura, e de prover conhecimento, qualificação e a formação do ser alinhado eticamente com o seu tempo, disposto e qualificado para realizar obras convergentes ao desenvolvimento econômico-social de seu ambiente.
E isto deve-se essencialmente não apenas ao excesso de especialização em algumas áreas do conhecimento como a medicina e a economia, e ao exclusivismo de sua comunicação/ produção científica à compreensão de iniciados na área do saber em questão, mas, principalmente, por sua inorganicidade, ignorando os desejos e necessidades de sua coletividade . A universidade e sua produção tornam-se um fim restrito aos seus iniciados. O vulgo, cada vez mais, não percebe benefícios do financiamento da educação superior e os agentes econômicos interessam-se cada vez mais pelo potêncial utilitário da universidade.
Perdida entre dois extremos: orientar-se para o mercado ou fechar-se em torno de si mesma, a produção de conhecimento cada vez menos é capaz de promover tanto a transformação social, t como a promoção da trancendência humana. Ou seja, suas possibilidades mais adequadas no que se refere ao seu papel como fim em si mesmo e no seu papel como fim útil como meio para outro fim, não estão sendo devidamente exploradas, perdendo-se em uma estrutura anacrônica onde a produção de conhecimento perde esse significado para tornar-se viabilizante de privilégios estamentais e dogmáticos.
A resposta a esse diagnóstico têm sido a defesa da maior democratização do conhecimento, da promoção da interdisciplinaridade na produção de conhecimento e na transdisciplinaridade, em sua comunicação. A literatura Pop pode ordenar-se para viabilizar duas dessas propostas: Pode ampliar o acesso ao conhecimento produzido pelos pesquisadores em todo o mundo; pode efetivar a transdiciplaridade.
Para alcançá-lo, essa literatura precisa redefinir seus métodos e certezas, rompendo com o paradigma predominante. Ela precisa ser capaz de comunicar o conhecimento de maneira simples, mas que preserve seu conteúdo, respeite a inteligência do leitor e incentive sua reflexão crítica e autônoma. Dessa forma, teremos uma grande contribuição rumo à aproximação entre a academia e a sociedade, dentro de sua vocação revolucionária. Teremos a recuperação de sua relevância e incomodaremos bastantes os "doutores" protegidos por sua preguiça, seus títulos e sua tautologia.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Recomendo que ouça após a leitura da postagem abaixo:

Admirável Chip Novo
Pitty
Composição: Pitty


video

Letra

Pane no sistema, alguém me desconfigurou

Aonde estão meus olhos de robô?

Eu não sabia, eu não tinha percebido

Eu sempre achei que era vivo

Parafuso e fluído em lugar de articulação

Até achava que aqui batia um coração

Nada é orgânico, é tudo programado

E eu achando que tinha me libertado.

Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:

Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba Leia, vote, não se esqueça Use, seja, ouça, diga Tenha, more, gaste e viva Pense, fale, compre, beba Leia, vote, não se esqueça Use, seja, ouça, diga... Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor

A irrelevância do Pop Management

Há muito tempo dialogamos na UFRJ a respeito do sucesso da literatura Pop em administração. Direcionado a um leitor não especialista e, principalmente ao senso comum, este tipo de literatura costuma ser duramente condenada pelos intelectuais mais qualificados devido à sua superficialidade e simplificação excessiva.
John Kay, por exemplo, em artigo publicado no The economist e no Valor Econômico em 2002 intitulado "A simplicidade têm um preço", analisa o tempo de estudo necessário para o entendimento do Best-Seller "Quem mexeu no meu queijo" e conclui que o livro subestima a capacidade intelectual de seus leitores, uma vez que direciona a sua obra para leitores com 5 anos de educação escolar.
Pior, este Best Seller bajula os leitores de tal forma que não cria condições para que eles desenvolvam alguma capacidade criativa ou crítica, transmitindo a mensagem de maneira disciplinada ( WEBER,Max. Ensaios de Sociologia: _ O significado da disciplina), ou seja, de modo a estimular um comportamento alienado e automático.
Este tipo de postura busca ainda a univocidade de sentido. Ou seja, quer-se induzir seus leitores a atribuirem sentido semelhante às suas ações através de uma abordagem retórica que faz apelo ao turpitudo: Não se pode questioná-lo uma vez que este sentido é inevitável! Ou o usamos da maneira mais eficiente possível ou não sobreviveremos no mundo moderno!
Infelizmente a fabricação em escala de individuos disciplinados e sem subjetividade aparente, vêm sendo estimulada desde o desenvolvimento da burocracia, num contexto em que sua eficiência torna-a a melhor maneira de racionalizar as ações sociais em busca de uma finalidade específica: surge para garantir o estamento, a eficácia e o poder de um conjunto de sacerdotes hierocratas no âmbito da Igreja, estende-se à organização do Estado, através da ação dos princípes que buscavam diminuir o poder do Clero e ampliar a eficiência do Estado; chegando posteriormente à organização militar, que através dela tornam-se mais eficazes que os exércitos baseados na cavalaria e, mais tarde, à gestão empresarial, onde a burocracia inaugura a administração.
A eficiência relativa da burocracia, em seu tipo puro, que inclui uma estrutura organizacional funcionalista, demanda profissionais alienados e executantes acriticos, capazes de cumprir ordens com eficiência e incapazes de inovar e raciocinar criticamente em relação aos fins e aos valores implícitos em suas ações. É este tipo de profissional que desenvolvemos em nossa educação tradicional, avaliada em função da quantidade de conhecimento decorado, estando de tal forma incorporada aos hábitos hodiernos que costuma-se estimar a capacidade dos universitários por meio de sua capacidade de responder perguntas em modelos de múltipla escolha ou no estilo "palavras-cruzadas".
Este é o papel majoritariamente cumprido pela literatura Pop Management na sociedade contemporânea: reforçar o discurso da sobrevivência e da inevitabilidade, para "formar pessoas" acriticas e disciplinadas para serem empregadas de organizações burocráticas onde o diálogo e a comunicação são considerados "ameaças" que precisam ser "gerenciadas" em seus fundamentos culturais e tecnológicos. Esta também têm sido a função dos programas de treinamento e desenvolvimento(?) organizacional hodiernamente.
Cabe aqui a pergunta: Seria o mesmo efetivamente inevitável ? Seria essa a sua possibilidade mais relevante no contexto social e organizacional? O título desse artigo sugere que não. Em breve publico o porquê.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O sucesso da Top Model Gisele Bundchen

Na primeira postagem do laboratório apontamos a modelo Gisele Bundchen como exemplo de uma postura inovadora cuja essência apresentaria semelhanças com os princípios do movimento antropofágico. Fiz esta inclusão motivado pelo sucesso da modelo num ambiente profissional aprioristicamente exótico, uma vez que o mundo da moda seria um produto incorporado pela nossa cultura a partir de um modelo estrangeiro.
Sustentar esta afirmação demandaria uma investigação profunda e que provavelmente não convergiria com os objetivos do LEESE. Os índios viviam quase pelados, mas o povo brasileiro é resultado do encontro de três raças que possíam suas modas relativas a relação entre as vestimentas, o papel social, e o prestígio de quem a veste. Falar em moda exótica em si mesma me pareceu desarrazoado.
Ainda assim, poderíamos explorar o papel da indústria da moda na cultura e suas especificidades. Sem dúvida alguma, a dinâmica desta relação modificou-se com a revolução indústrial, associando-se ao estamento e a renda de quem a veste, assim como sua posição nas relações de trabalho. A indústria da moda pode ter chegado ao Brasil por meios exóticos, como chegara a própria revolução indústrial. No entanto, e nisso consistiu meu equívoco, isto não impediu a indústria da moda de reinventar-se, transformando-nos e incorporando nossa singularidade na sua práxis e na sua produção.
Por isso a Top Model Gisele Bundchen é tão fantática. Ela soube compreender a indústria da moda e revolucioná-la, introduzindo a ginga, a sensualidade e o modo brasileiro de encantar e seduzir. Moda é sedução. É também estética, a capacidade de encantar o próximo e provocar a sensação de estar diante de uma visão bela, capaz de nos fazer esquecer a rotina cotidiana, libertando-nos e nos inspirando. Muito mais do que expressar um papel social e o estamento, é uma forma de reencantar o mundo desencantado pela razão.
Com essa ação, Gisele Bundchen levou ao mundo nossa história. Ouso dizer que explorou-a para conquistá-lo e fazê-lo ajoelhar-se diante dela e de nossa cultura. O samba, surgido em solo brasileiro e decorrente de nossa influência negra está em Gisele. Nossa informalidade dionisíaca, decorrente de nossa emotividade e vínculo comunitário substituiu a imagem apolínea das modelos sem subjetividade. Gisele é espontânea, transborda vida e sensualidade. É latina, brasileira, e justamente por isso, extremamente elegante.
A elegância típica da rainha que conhece a si mesmo, sua cultura, seu ambiente, e sabe enxergar além das aparências. é rainha não apenas por ser bela, mas principalmente por sua sabedoria, simpatia e ousadia.Trata-se de um espirito livre e realizador. Desculpe Gisele, sua postura não foi antropofágica, mas autêntica.
Você é uma inspiração para o nosso laboratório!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O método viral

Não levem o LEESE muito a sério!
Nosso objetivo é aproximar as pessoas. Aproximar aqueles que trabalham e os que pesquisam a gestão corporativa brasileira. Suas linhas de pesquisas devem ser apropriadas por todos os profissionais que trabalham em grandes empresas, motivo suficiente para que conheçam o suficiente de administração para que possam tornar seu trabalho eficaz e realizador.
Muitas vezes percebemos o problema, mas não temos acesso aos recursos necessários para superá-los. Pode-se, com este comportamento, conformar-se com resultados medianos. Em outras ocasiões, não percebemos o anacronismo, o esgotamento estrutural, mas temos acesso a recursos adequados para ultrapassá-los. Através do LEESE e da troca de idéias resultantes, podemos não apenas reuní-los como colocá-los para trabalhar juntos, buscando as soluções que contribuirão para nossa realização profissional e humana.
Todos, portanto, estão convidados. LEESE significa promover o autodesenvolvimento convergente à realização profissional. Significa elaborar estratégias profissionais/planejamento de carreira bem formulados, que resultarão em eficácia empresarial e desenvolvimento econômico. Deve-se a isto a opção pelo método víral. Começamos as investigações, formulamos as perguntas, problematizamos o nosso trabalho e questionamos sua eficácia. Depois, agimos praticamente dentro de nosso ambiente profissional buscando inovar para torná-lo mais realizador e eficaz.
Aliás, começo inroduzindo minha primeira inquietação: Existe eficácia sustentada sem realização de cada profissional tomado individualmente?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Fundamentos epistemológicos

Nosso método consiste em principiar as investigações que resultarão em pesquisas e ações profissionais. Não se trata de uma produção de conhecimento exclusivamente livresca ou encerrada na observação acrítica. Tampouco buscamos apenas compreender as relações de trabalho, a organização, suas metodologias de gestão e perspectivas estratégicas e posicionamentos competitivos.
O objetivo do LEESE é contribuir para o desenvolvimento econômico-social e a realização humana, privilegiando as ações administrativas capazes de promovê-los e fundando-o na comunicação intra-corporativa, no questionamento e no trabalho em equipe. Os argumentos postados almejam, portanto, a aplicação prática. O conhecimento se processa em interação com a ação no mundo concreto e busca realizar-se nele como um prolongamento do agente que o alinhe com o seu tempo, transformando seus potênciais em competências e resultando numa ação coletiva mais potente que o simples somatório das partes envolvidas. O enfoque é a articulação entre a produção e divulgação de conhecimentos e a eficácia profissional/empresarial.
O LEESE não possui espaço físico. Suas investigações são realizadas a partir dos recursos de outros laboratórios. Ele serve para formular a pergunta, para nos mostrar como desenvolver melhores práticas profissionais e onde buscar/produzir o conhecimento necessário para encontrar a excelência.
Sua criação deveu-se a minha participação no LABEDUCEMP, laboratório de educação estratégica empresarial do professor e pesquisador da UFRJ Luis Eduardo Posch de Carvalho e Silva, do qual tive a ousadia de me tornar membro em 2007. O LABEDUCEMP adota a inovadora metodologia do desconstrutivismo pedagógico desenvolvida pelo professor a partir da epistemologia genética de Piaget, do materialismo histórico de Karl Marx, a Filosofia de Nietzche e Wittgestein, o pensamento Druckeriano e as experiências profissionais do professor.
O LEESE assume a proposta de divulgar e comunciar minhas pesquisas científicas, metafísicas, artísticas e teológicas, na expectativa de que possa corroborar para que esta visão efetivamente se inverta em inovação e intraprendedorismo em conformidade com os seus objetivos práticos.

O que é o LEESE?

Você está no LEESE, o laboratório de empreendedorismo e estratégia empresarial de Felipe Ribeiro Pinto. Estamos apenas no começo, e todos aqueles interessados em conhecê-lo estão convidados e até intimados a participar com suas idéias, críticas, pesquisas e colaborações.
O LEESE nasceu quando me preparava para o vestibular. Estudava para a prova específica de Português na UFRJ, e estava no capítulo sobre o modernismo. Voltava a tomar contato com as correntes apresentadas na semana de arte moderna de 1922 após 7 anos. Estudava para entrar em administração na UFRJ depois de longa análise vocacional, experiência profissional de 3 anos em gestão, realização de cursos de empreendedorismo no SEBRAE, e uma fracassada escolha acadêmica anterior, quando cursara por dois semestres Publicidade e propaganda na PUC-SP. Desta vez não podia falhar, o que, felizmente, não aconteceu.
Nessa leitura, retomei o contato com os movimentos da época, e dois deles me chamaram a atenção: o movimento antropofágico e o movimento Pau-Brasil. O primeiro percebi que tinha resultado em uma série de ações em várias esferas sociais. Direta ou indiretamente. Inspirou o tropicalismo em 1960, a Bossa Nova, contém semelhanças com a metodologia de algumas escolas de administração como a FGV\SP, a desenvolvida por Florestan Fernandes na Escola Paulista de Sociologia, e até com o fantástico sucesso da nossa modelo Gisele Bundchen.
Entretanto, o movimento Pau- Brasil não me pareceu, e ainda não me parece, ter tido sucesso análogo. Não encontrei nenhuma justificativa coerente para isso. Esse movimento prega que exploremos nossas singularidades, transformando-as em objeto de exportação, repetindo o caminho do Pau- Brasil, primeiro produto brasileiro nativo exportado. Ainda acredito que temos muitas características únicas em nossa biodiversidade social e natural que podem conquistar o mundo, difundindo nossa cultura e nossa ecologia. Viabilizando nosso desenvolvimento e soberania.
Essa atração nasceu de um princípio que havia desenvolvido a partir de minha experiência na Mar&arte Playground: conciliar eficácia empresarial e desenvolvimento local. Nessa empresa, tive a oportunidade de conhecer a respeito das funções gerenciais. Tratava-se de uma empresa pequena, que fornecia os parques infantis de condomínios e obras públicas fabricados a partir de troncos de eucalipto citriodora tratados. Nosso principal concorrente era uma empresa estadunidense, por isso desenvolvi a estratégia de diferenciação focado na nossa vantagem territorial, explorando potencialidades nativas e nosso maior conhecimento da cultura nacional.
A empresa não durou muito tempo, apenas três anos intensos, mas serviu para motivar a realização de cursos sobre empreendedorismo no SEBRAE, onde esta perspectiva estratégica foi aperfeiçoada. Cheguei a elaborar o plano de negócios de uma empresa em que os parques infantis, pedagogicamente, conteriam em seu design a exposição de momentos marcantes de nossa história, com o 14 BIS, a caravela, a Igreja rococó, a oca, e alguns outros. Infelizmente, a falta de recursos técnicos e financeiros inviabilizaram a construção da empresa. Pelo menos, a questão da exploração de nossas potencialidades nativas, possivelmente relacionada com nosso subdesenvolvimento histórico, manteve-se latente, inspirando a criação do LEESE.
Durante a graduação na UFRJ, onde mais se faz pesquisa sobre o Brasil, no Brasil; percebi que nossa gestão organizacional está marcada pela absorção acrítica da tecnologia estrangeira, seguindo movimento que perpassa toda nossa cultura. A nossa corrupção, por exemplo, pode ser melhor compreendida se começarmos a problematizá-la com esse olhar. Absorvemos modelos institucinais exóticos, o que provocou estranhamento e um tipo peculiar de resistência, resultante das influências de nossos virtuosos religiosos e sua religiosidade concreta, das características de nossa imigração e nossa formação político-econômica. Chamo-a de resistência velada.
Quem quiser conhecer um pouco melhor sobre esta resistência nativa, está convidado a conhecê-la. Apresentei minha pesquisa sobre o assunto na Semana de iniciação científica da UFRJ de 2008, e quem quiser é só deixar seu email que a encaminho. Por ora, é preciso atentar que talvez a resistência à mudança dentro das corporações brasileiras, os modismos gerenciais, e nosso baixo índice de inovação tecnológica estejam relacionados com esses elementos culturais. Se isto for confirmado, de nada adiantarão os promissores MBA's no exterior ou nas universidades antropofágicas brasileiras. Estaremos sempre aquém de nossa capacidade, com potencialidade inexplorada e crise de excesso de competência em nossas empresas, univerdades, e laboratórios de pesquisas. Precisaremos de novas formas de ver e perceber o assunto, de novas idéias e metodologias inovadoras. O objetivo do LEESE é contribuir para que elas de materializam. Presunção? Talvez.
Vejamos o que Max Weber , criticamente interpretado, pensaria sobre isso:
" A [administração] é como a perfuração lenta de tábuas duras. Exige tanto paixão como perspectiva. Certamente, toda experiência histórica confirma a verdade _ que o homem não teria alcançado o possível se repetidas vezes não tivesse tentado o impossível. Mas para isso, o homem deve ser um LÍDER, e não APENAS um líder, mas também um HERÓI, num sentido muito sóbrio da palavra. E mesmo os que não são líderes nem heróis devem armar-se com a fortaleza do coração que pode enfrentar até mesmo o desmoronar de todas as esperanças. ISSO É NECESSÁRIO NESTE MOMENTO MESMO, ou os homens não poderão alcançar nem mesmo aquilo que é possível hoje. Somente quem tem a vocação da [administração] terá a certe za de não desmoronar quando o mundo, do seu ponto de vista, for demasiado estúpido ou demasiado mesquinho para o que ele deseja oferecer. somente quem, frente a tudo isso, pode dizer 'a despeito de tudo', têm a vocação para a [administração]." Crítica do seminário de MAx Weber Política como vocação, substituindo os termos política por administração.