terça-feira, 29 de abril de 2008
A relevância do Pop Management
Da mesma forma que a literatura Pop em administração apresenta-se como instrumento de alienação e dominação, também pode ser percebido ou proposto de maneira contrária. Essa ambiguidade é tipíca da abordagem interprativa das ciências da cultura, ou holismo metodológico, na qual o mesmo objeto pode ter tantas interpretações quantos forem os valores e os fins aos quais estiverem relacionados. A diferença básica será analítica, uma vez que diferentes perspectivas valorativas ou de finalidades acarretarão diferentes abordagens. O que no caso da literatura Pop Management deve ser entendido como uma alteração em seu modelo e apresentação.
A literatura Pop pode apresentar-se como uma hipotética superação de uma organização e produção de conhecimento equivocada e anacrônica. Hodiernamente, observa-se, em todo o mundo, um debate acerca do papel da Universidade e da Ciência no terceiro milênio. Na própria UFRJ, onde estudo, debates acerca da reforma da instituição desenrolam-se desde a década de 90. A essência da crise universitária contemporânea está no seu distanciamento social. Quero dizer com isso que a universidade perdeu, ou pelo menos viu limitada, sua capacidade de organização da cultura, e de prover conhecimento, qualificação e a formação do ser alinhado eticamente com o seu tempo, disposto e qualificado para realizar obras convergentes ao desenvolvimento econômico-social de seu ambiente.
E isto deve-se essencialmente não apenas ao excesso de especialização em algumas áreas do conhecimento como a medicina e a economia, e ao exclusivismo de sua comunicação/ produção científica à compreensão de iniciados na área do saber em questão, mas, principalmente, por sua inorganicidade, ignorando os desejos e necessidades de sua coletividade . A universidade e sua produção tornam-se um fim restrito aos seus iniciados. O vulgo, cada vez mais, não percebe benefícios do financiamento da educação superior e os agentes econômicos interessam-se cada vez mais pelo potêncial utilitário da universidade.
Perdida entre dois extremos: orientar-se para o mercado ou fechar-se em torno de si mesma, a produção de conhecimento cada vez menos é capaz de promover tanto a transformação social, t como a promoção da trancendência humana. Ou seja, suas possibilidades mais adequadas no que se refere ao seu papel como fim em si mesmo e no seu papel como fim útil como meio para outro fim, não estão sendo devidamente exploradas, perdendo-se em uma estrutura anacrônica onde a produção de conhecimento perde esse significado para tornar-se viabilizante de privilégios estamentais e dogmáticos.
A resposta a esse diagnóstico têm sido a defesa da maior democratização do conhecimento, da promoção da interdisciplinaridade na produção de conhecimento e na transdisciplinaridade, em sua comunicação. A literatura Pop pode ordenar-se para viabilizar duas dessas propostas: Pode ampliar o acesso ao conhecimento produzido pelos pesquisadores em todo o mundo; pode efetivar a transdiciplaridade.
Para alcançá-lo, essa literatura precisa redefinir seus métodos e certezas, rompendo com o paradigma predominante. Ela precisa ser capaz de comunicar o conhecimento de maneira simples, mas que preserve seu conteúdo, respeite a inteligência do leitor e incentive sua reflexão crítica e autônoma. Dessa forma, teremos uma grande contribuição rumo à aproximação entre a academia e a sociedade, dentro de sua vocação revolucionária. Teremos a recuperação de sua relevância e incomodaremos bastantes os "doutores" protegidos por sua preguiça, seus títulos e sua tautologia.
terça-feira, 22 de abril de 2008
Recomendo que ouça após a leitura da postagem abaixo:
Admirável Chip Novo
Pitty
Composição: Pitty

Pitty
Composição: Pitty
Letra
Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação
Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado.
Mas lá vem eles novamente e eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema
Pense, fale, compre, beba Leia, vote, não se esqueça Use, seja, ouça, diga Tenha, more, gaste e viva Pense, fale, compre, beba Leia, vote, não se esqueça Use, seja, ouça, diga... Não senhor, Sim senhor, Não senhor, Sim senhor
A irrelevância do Pop Management
Há muito tempo dialogamos na UFRJ a respeito do sucesso da literatura Pop em administração. Direcionado a um leitor não especialista e, principalmente ao senso comum, este tipo de literatura costuma ser duramente condenada pelos intelectuais mais qualificados devido à sua superficialidade e simplificação excessiva.
John Kay, por exemplo, em artigo publicado no The economist e no Valor Econômico em 2002 intitulado "A simplicidade têm um preço", analisa o tempo de estudo necessário para o entendimento do Best-Seller "Quem mexeu no meu queijo" e conclui que o livro subestima a capacidade intelectual de seus leitores, uma vez que direciona a sua obra para leitores com 5 anos de educação escolar.
Pior, este Best Seller bajula os leitores de tal forma que não cria condições para que eles desenvolvam alguma capacidade criativa ou crítica, transmitindo a mensagem de maneira disciplinada ( WEBER,Max. Ensaios de Sociologia: _ O significado da disciplina), ou seja, de modo a estimular um comportamento alienado e automático.
Este tipo de postura busca ainda a univocidade de sentido. Ou seja, quer-se induzir seus leitores a atribuirem sentido semelhante às suas ações através de uma abordagem retórica que faz apelo ao turpitudo: Não se pode questioná-lo uma vez que este sentido é inevitável! Ou o usamos da maneira mais eficiente possível ou não sobreviveremos no mundo moderno!
Infelizmente a fabricação em escala de individuos disciplinados e sem subjetividade aparente, vêm sendo estimulada desde o desenvolvimento da burocracia, num contexto em que sua eficiência torna-a a melhor maneira de racionalizar as ações sociais em busca de uma finalidade específica: surge para garantir o estamento, a eficácia e o poder de um conjunto de sacerdotes hierocratas no âmbito da Igreja, estende-se à organização do Estado, através da ação dos princípes que buscavam diminuir o poder do Clero e ampliar a eficiência do Estado; chegando posteriormente à organização militar, que através dela tornam-se mais eficazes que os exércitos baseados na cavalaria e, mais tarde, à gestão empresarial, onde a burocracia inaugura a administração.
A eficiência relativa da burocracia, em seu tipo puro, que inclui uma estrutura organizacional funcionalista, demanda profissionais alienados e executantes acriticos, capazes de cumprir ordens com eficiência e incapazes de inovar e raciocinar criticamente em relação aos fins e aos valores implícitos em suas ações. É este tipo de profissional que desenvolvemos em nossa educação tradicional, avaliada em função da quantidade de conhecimento decorado, estando de tal forma incorporada aos hábitos hodiernos que costuma-se estimar a capacidade dos universitários por meio de sua capacidade de responder perguntas em modelos de múltipla escolha ou no estilo "palavras-cruzadas".
Este é o papel majoritariamente cumprido pela literatura Pop Management na sociedade contemporânea: reforçar o discurso da sobrevivência e da inevitabilidade, para "formar pessoas" acriticas e disciplinadas para serem empregadas de organizações burocráticas onde o diálogo e a comunicação são considerados "ameaças" que precisam ser "gerenciadas" em seus fundamentos culturais e tecnológicos. Esta também têm sido a função dos programas de treinamento e desenvolvimento(?) organizacional hodiernamente.
Cabe aqui a pergunta: Seria o mesmo efetivamente inevitável ? Seria essa a sua possibilidade mais relevante no contexto social e organizacional? O título desse artigo sugere que não. Em breve publico o porquê.
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