domingo, 11 de maio de 2008
Reflexões sobre eficiência absoluta e eficiência relativa
A física contemporânea com sua teoria da relatividade, pode ser uma interessante metáfora para interpretar os efeitos da revolução tecnológica e seus ganhos em eficiência e produtividade na disponibilização de tempo ocioso para a humanidade.
A teoria da relatividade geral e a descoberta dos buracos negros nos mostram que a própria velocidade, quando atinge um determinado limite como a velocidade da luz, além de gerar um campo gravitacional, acarreta uma curvatura no espaço:
"Einstein mostrou que a passagem do tempo e as medidas de distância não são quantidades absolutas. Dependem do movimento relativo entre observadores. Um relógio em movimento bate mais devagar do que um em repouso, e uma régua em movimento terá um cumprimento menor que o de outra em repouso. Não percebemos isso porque os fenômenos relativísticos só se manifestam a velocidades próximas às da luz ( 300 mil quilômetros por segundo). Mas se um trem fosse capaz de andar a 180 mil quilômetros por hora, um relógio que marcasse uma hora no trem, marcaria uma hora e quinze minutos na estação(...)
Um movimento acelerado pode imitar os efeitos da força gravitacional. O mesmo puxão que sentimos ao acelerar um carro pode ser provocado pela súbita colocação de uma enorme massa atrás do carro, que nos atrairia gravitacionalmente em sua direção(...)
Assim como uma bola de chumbo deforma sua superfície, a presença de matéria deforma a curvatura do espaço. Objetos em movimento nesse espaço terão suas trajetórias alteradas, tal como bolas de gude no colchão deformado. E, como o tempo e o espaço estão intimamente ligados em relatividade, a presença de matéria deforma a passagem do tempo. Em relatividade geral, o espaço-tempo torna-se deformável pela presença de matéria." ( Marcelo Gleiser. Micro e macro)
De maneira análoga, se o Flash atingisse uma velocidade muito grande, além de gerar um campo gravitacional em torno de si como acontece nas revistas em quadrinhos, o seu ganho de tempo absoluto decorrente de sua supervelocidade perder-se-ia em termos relativos, pelo menos em parte, devido ao seu efeito na curvatura espaço-tempo.
Isto significa que a velocidades extremamente altas ou na proximidade de buracos negros ou de minhocas( pontes que ligam pontos disktantes no espaço-tempo dentro do mesmo universo), o tempo para quem está dentro dos seus limites passa mais rapidamente do que para quem está fora. Ou seja, um ano para quem está dentro será equivalente a muito mais que um ano para quem está fora. Mas, o que isto pode nos permitir interpretar em termos da revolução tecnológica?
Observem que os limites dos buracos negros ou velocidades muito grandes acarretam no surgimento de uma espécie de externalidade: os ganhos de eficiência absolutas, dentro, perdem-se em termos realtivos, para quem está fora. Quero propor com isso que, os ganhos de eficiência que, no limite, deveriam disponibilizar tempo livre para a humanidade produzem uma externalidade, maior demanda produtiva, que possuem um ponto ótimo.
Voltando ao Flash. Se ele quisesse usar sua supervelocidade para montar um relógio, ele teria um ponto ótimo no qual se ele passasse, seus ganhos em tempo absoluto para montar o relógio rapidamente, perder-se-iam para quem o observa. Ele poderia montar o relógio em poucos segundos, mas a externalidade que sua supervelocidade acarretaria na curvatura do espaço-tempo faria com que, para nós, o Flash tivesse levado horas!
Com isso, concluo que a eficiência acarretada pela revolução tecnológica também possui um ponto ótimo, que talvez já tenha sido ultrapassado. Conseguimos maior eficiência, se comunicar em velocidades quase instantâneas com qualquer parte do mundo, mas a externalidade que este ganho acarretou: exigências maiores em termos de comunicação, deslocamento e produção; fizeram com que nossa capacidade de produzir de maneira eficiente, ou seja, exigindo menos tempo relativo de nosso trabalho e disponibilizando tempo da humanidade para ações sociais não ligadas à produção de bens e serviços, acabasse diminuindo!
O tempo para a produzir uma unidade de qualquer bem ou serviço pode ter diminuído, mas o tempo que dedicamos à produção de bens e serviços aumentou. O ponto ótimo dessa relação pode ter sido ultrapassado, sugerindo que maiores ganhos em eficiência serão incapazes de liberar parte de nosso tempo para outras atividades como a vida em família, em clubes, no bairro,etc. Este é o paradoxo da revolução tecnológica que a metáfora da curvatura do espaço-tempo nos permite perceber: Maior eficiência não necessariamente poupará nosso recurso mais escasso, nosso tempo!
Abraços!
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