quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A motivação e o homem feliz
No meu último artigo,“motivação e amor”, comuniquei algumas reflexões sobre a motivação humana, procurando mostrar a relação entre a motivação, o ágape ou amor divino e o propósito, além de questionar a possibilidade efetiva da motivação “extrínseca”. Destaquei, portanto, a reminiscência teológica presente no seu significado corporativo, apresentando sua relação com o propósito, sem no entanto me ater a ela e a suas reminiscências últimas. Pretendo aprofundar melhor a base conceitual utilizada naquele artigo.
Ao contrário do que pode parecer, a relação entre o homem feliz, a ação humana e o ágape não surgiram no cristianismo, mas emergem do conceito de felicidade humana definido por Aristóteles como a referência para a sua ética do bem. Hodiernamente, quando se fala em ética pensa-se em um conjunto de regras e deveres e quando o objeto é a filosofia, pensa-se em reflexões encerradas no plano das idéias rejeitando a prática e mesmo opondo-se a ela.
Aristóteles não apenas contradiz estes conceitos como a própria idéia de felicidade e prazer como entendemos hoje. Quando falamos em “sermos felizes numa ação”, como em “O grupo garantia está sendo feliz ao estender a cultura meritocrática e competitiva da Ambev para toda a Inbev” e “a decisão da Fundação gestora da Varig de escorar sua lucratividade no protecionismo governamental foi infeliz”, estamos usando a definição aristotélica de felicidade: agir praticamente buscando alcançar os apetites humanos, satisfazendo nossas necessidades de auto-realização ou necessidades espirituais, desenvolvendo nossas qualidades essenciais ou competências distintivas e alcançando o sumo prazer, o mais completo prazer, único capaz de formar um “Homem feliz”, uma vez que não está limitado pelos incompletos prazeres do corpo, mas relaciona-se às necessidades preementes ao nosso ser.
Decorre das reflexões aristotélicas que o propósito é o apetite deliberado, isto é, uma Vontade humana de gerar uma boa obra, acompanhada de uma deliberação racional capaz de ajustar praticamente meios e fins de maneira coerente e virtuosa, tal que, além de meritória, será sábia, não permitindo o excesso ou a falta quantitativa nas ações que conduzirão ao sucesso e à felicidade, de modo a se formarem os hábitos e os costumes que tornarão o homem feliz e bem sucedido.
No que se refere à aplicação destes conceitos à gestão organizacional e à motivação no trabalho, o objeto deste artigo contribui para a superação do desafio gerencial acarretado pela necessidade de tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado. Suponho que precisamos fazê-lo nos concentrando nas tarefas, que tanto precisam ser realizadas como enriquecidas para que se alinhem ao propósito do profissional e a sua trajetória de carreira, emergindo significados intracorporativos convergentes e a motivação intrínseca relativa ao trabalho demandado pela organização; condições necessárias para o cumprimento da missão organizacional e a obtenção da lucratividade que tanto buscamos como precisamos.
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