quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A sorte e o sucesso empresarial

Gostaria de dividir com meus colegas algumas impressões, acúmulos e reflexões sobre as relações entre a sorte e o sucesso empresarial. Observo que muitas das vezes esta relação é usada de maneira oportunista, ora numa tentava de minimizar o mérito de uma pessoa feliz e, portanto, bem-sucedida, supondo que o sucesso seja possível sem a virtude própria para a realização de cada atividade humana; ora para reduzir o impacto das variáveis exógenas que concorrem para o sucesso profissional, como se tais elementos não fossem decisivos para tal.
Desde Aristóteles, ainda na Idade Antiga, a Sorte foi considerada elemento decisivo na busca da felicidade. O Filósofo admitiu que, sem sorte, mesmo o mais virtuoso dos homens jamais alcançaria a felicidade, lembrando que, para o autor, isso significaria ser capaz de transformar em ato nossas potencialidades, focando naquelas capazes de gerarem as boas obras, servindo ao bem-estar geral e à satisfação pessoal.
Outro importante pensador, Nicolai Maquiavel, lembrado sempre pela literatura Pop Management pelo seu livro O Princípe, texto que marca a inauguração da Ciência Política como disciplina científica, estudou as causas que concorriam para a eficácia na administração pública realizada pelos princípes e concluiu que ela dependia da sua Virtude e da sua Sorte ao conduzir os negócios do Estado.
Paulo Coelho, no livro O Diário de um mago, recorre à sorte quando argumenta que "quando se está travando o bom combate o universo conspira a seu favor". Podemos perceber uma reminiscência cristã também em ditados populares entre executivos bem-sucedidos: "quanto mais trabalho, mais sorte eu tenho";"Deus ajuda quem cedo madruga". Com forte influência da ética protestante, o mundo corporativo incorpora a crença cristã segunda a qual, a obra, quando é boa, conta com a graça divina porque é produto da comunhão entre o Homem e Deus. Portanto, Ele ajuda quem "cedo madruga" desde que se esteja fazendo-o em conformidade com o bom combate, em direção à construção de algo bom.
O que se pode deduzir destes argumentos: teológicos, filosóficos, científicos e derivados da experiência prática de homens felizes em suas atividades?
1. Acredito que tais argumentos permitem concluir que a Sorte está ligada ao conceito de oportunidade. Ou seja, o ambiente geral precisa oferecer as condições que tornem possível a realização de uma determinada obra, entendida aqui como um bem que se prolonga para além de uma determinada ação, seja este bem algo concreto como um produto ou uma família; seja ele intangível como um serviço ou valor.
2. De fato, sem sorte pode-se não ser bem- sucedido mesmo estando bem preparado e dotado de um propósito consistente. No entanto, saber identificar e criar oportunidades faz parte da virtude necessária ao sucesso profissional, de modo que, saber analisar o ambiente, destacando os caminhos possíveis daqueles impraticáveis ou com baixa probabilidade de sucesso é muitas vezes a causa do fracasso de profissionais competentes mas que não sabem aplicá-las de maneira relevante e eficaz.
3. O desenvolvimento econômico-social e a felicidade humana depende da nossa virtude individual mas também da capacidade social/empresarial de construir um ambiente propício para ela. Logo, a qualidade de vida no trabalho, a remuneração justa, o desenvolvimento de metodologias de gestão coerentes e alinhadas com a nossa cultura, a implementação de uma cultura efetiva de qualidade nas empresas, e outros importantes elementos como os citados, devem ser vistos como críticos para a eficácia empresarial posto que a tornam possível, mas jamais devem ser consideradas como condições suficientes para tal.
Na economia autores como Adam Smith, Alfred D. Chandler Jr e Schumpeter, destacaram a importância da identificação e criação de oportunidades para a geração de riqueza, o desenvolvimento econômico e a eficácia empresarial. Na administração, a análise SWOT, a análise da indústria e da concorrência e outras metodologias desenvolvidas por consultores proeminentes como Michael Porter e o BCP Consulting Group, evoluem em direção à definição "certa" do negócio empresarial, capaz de garantir lucratividade e bem-estar como enfatizou Drucker.
Cabe aos nossos administradores a criação das oportunidades, ou seja, da Sorte, e aos profissionais aproveitá-las eficazmente. Na teoria parece trivial, mas o que você e sua empresa estão fazendo para superar os desafios práticos para implementá-los?

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