quinta-feira, 14 de maio de 2009

O capital do empreendedor

Há algum tempo atrás tive a oportunidade de conhecer o trabalho do professor José Dornellas na área de empreendedorismo, participando de um evento realizado por ele na FIRJAN. O autor participa de seminários, promove palestras, cursos, escreve livros e desenvolve tecnologias digitais voltadas para a desafiadora tarefa de melhorar o ensino e a prática empreendedora no nosso país. Dornellas admite, logo na introdução do seu livro "Empreendedorismo: transformando idéias em negócios", que é preciso compreender melhor o empreendedorismo para que possamos buscar a sua efetividade prática.
Embora o professor esteja realizando uma grande contribuição à promoção e ao desenvolvimento do empreendedorismo no nosso país, em alguns momentos seus argumentos recorrem a imperativos comportamentais( vide o meu artigo A irrelevância do Pop Management), pecando por apelar para as emoções e a vaidade dos leitores, deixando-os com a falsa impressão de que precisam assumir um suposto "comportamento empreendedor" para alcançarem o sucesso em seus negócios. Sustenta seu argumento baseado em inadequada evidência empírica e elaboração teórica pouco consistente, mas bastante convincente, apontando a necessidade de que se cumpra burocraticamente o processo empreendedor que o autor apresenta, na ordem que ele apresenta, para se tornar um empreendedor de sucesso.
O seu processo começa com a identificação de oportunidades, prossegue com a elaboração do plano de negócios, passa pela busca por financiamento e culmina no gerenciamento do negócio. Ao propor seu processo empreendedor, Dornellas ignora que a questão financeira é parte decisiva da identificação da oportunidade e da própria elaboração do plano de negócios, devendo ser realizada ao mesmo tempo em que se busca viabilizar a oportunidade percebida.
Outro ponto complicado na sua elaboração é que o autor apresenta um estudo em que o Brasil se apresenta como o nono país em atividade empreendora ( percentual da população adulta dona do seu próprio negócio). No entanto os primeiros colocados são países pouco expressivos no cenário econômico internacional como Peru, Colômbia, Jamaica e Filipinas. Conclui-se, portanto, que ter uma alta atividade empreendora não significa que temos uma atividade empreendora eficaz e na medida adequada para a promoção do nosso desenvolvimento econômico e social.
A explicação que justifica estas considerações, podem ser encontradas na obra do economista Polonês Kalecki: Teoria da Dinâmica Econômica . Engenheiro de formação, ex- professor de economia em Cambridge, Oxford, secretário da ONU e um dos grandes influenciadores do pensamento econômico dos integrantes da CEPAL (comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o autor concluiu que a capacidade empresarial é decisiva para definir a capacidade empreendora. E isto porque o risco inerente aos investimentos em novos negócios só podem ser assumidos por aqueles que possuem um volume de capital próprio e uma perspectiva de retorno sobre o investimento suficientes para atrair capital de risco:
"Muitos economistas supõem, pelo menos em suas teorias abstratas, um estado de democracia econômica onde qualquer pessoa com o dom da habilidade empresarial pode obter capital para inciar um negócio. Esse quadro das atividades do empresário 'puro' (empreendedor) não é, para pôr a coisa em termos modestos, realista. O pré-requisito mais importante para alguém se tornar empresário é a propriedade de capital" (KALECKI)
Dito isto, a relevância de se levantar recursos e sócios capitalistas para que se possa iniciar um novo negócio se mostra decisiva, ao contrário do que pensa o professor. Presentemente, muitas pequenas empresas de alta tecnologia e bastante capitalizadas fazem parte do processo de inovação e criação de valor empresarial. Trata-se do modelo de produção toyotista, onde várias empresas pequenas se articulam em trono de uma empresa mãe , comportando-se como se fossem uma única unidade empresarial extremamente inovadora e competitiva.
Portanto, um dos caminhos para o empreendorismo entendido como a criação de novos negócios é a associação de ex-funcionários com pesquisadores e empresas grandes em determinada cadeia produtiva. Outro caminho é buscar recursos para efetivar a criação de inovações produtivas em mercados novos, realizando a famosa "destruição criativa" de Joseph Schumpeter. Em ambos, é decisivo conhecer o mercado, a indústria, o negócio e o produto em si. É decisivo identificar barreiras à entrada, necessidades latentes dos consumidores e o seu valor. As competências centrais e demais recursos necessários para a criação, comunicação e entrega do valor proposto. E fazê-lo comparando com a sua possibilidade de reuní-los e alocá-los de maneira lucrativa e com seus riscos minimizados por um adequado montante de capital.
Infelizmente, empreender é mais complicado do que seguir cartilhas e manuais. Isso eu vivenciei quando tentei montar um negócio de brinquedos de madeira e acabei endividado e frustrado. E acho que isso inspirou Platão também:
"Há mais coisas entre o céu e a terra do que pregam a nossa vã literatura pop[Filosofia]"( versão original entre colchetes)

1 comentários:

Leonardo Siqueira disse...

Uma análise pertinente e profunda, alertando os empreendedores por necessidade e não por vocação, que nem sempre querer é poder.

Existem diversas formas relativamente simples de criar um empreendimento, mas, obter sucesso e promover seu crescimento, é outra coisa...

Parabéns pela lucidez Felipe!