segunda-feira, 18 de maio de 2009

Pet Center Marginal corrobora hipótese sobre o empreendedorismo

Na edição deste mês, o jornal do grupo CATHO carreira & Sucesso publica a história de sucesso do empreendedor Sérgio Zimerman proprietário-administrador da Pet Center Marginal.
A questão crítica para corroborar ou refutar os argumentos contidos no artigo postado anteriormente é investigar como o empreendedor Sérgio Zimerman captou os recursos dos investidores que apoiaram a criação do seu negócio e sua relação com o capital próprio invertido na empresa. Dos trechos citados abaixo, poder-seà notar que o empreendedor não analisou a oportunidade de negócio ignorando se poderia captar os recursos necessários para explorá-la, à maneira que defende Dornellas.
Por outra, parece-me evidente que o plano de negócios, decisivo para atrair estes associados, atentou para a relação entre o capital próprio do empreendedor e o quanto poderia ser alavancado pela empresa a partir disto. Seguem abaixo cinco fatores críticos para o sucesso do empreendedor:
1. O empreendedor teve o cuidado de alinhar as estratégias produto-mercado da empresa incipiente à sua disponibilidade de capital próprio, corroborando a hipótese de que o pré-requisito mais importante para que se possa se tornar um empreendedor é a propriedade de capital, não sendo a "vocação" e/ ou o conhecimento técnico suficientes para criar as condições para viabilizar a atividade empreendedora:

"Por que resolveu apostar nesse mercado?

Ao pesquisar o mercado, cheguei à conclusão de que era um mercado saturado quantitativamente, com mais de 25 mil pequenas lojas administradas pelo dono e pela família, geralmente de uma maneira muito empírica pouco profissional. Mas, notei que havia uma carência em qualidade. Vi que era um mundo gritando por novas ideias, por ideias de impacto, que transformassem a ida ao pet shop em um passeio ao shopping, algo prazeroso para quem tivesse bichos de estimação. Nesse projeto, pude contar com o apoio de um grupo de investidores que acreditaram nas minhas ideias"

2. A análise econômico-financeira foi parte decisiva da identificação da oportunidade e do planejamento do empreendimento:

"O que você pretendia e o que desejava fazer no início da sua carreira profissional?

Quando tinha 18 anos conclui um curso técnico em edificações e pretendia trabalhar na área de construção. O engraçado é que já naquela época, com aquela idade e no auge da juventude, eu não me via trabalhando para terceiros e já sonhava com meu próprio negócio. E, como para ser meu próprio patrão precisava montar uma construtora, o que exige muito dinheiro, comecei com o que apareceu mais à mão e que não exigia, de imediato, muito capital: trabalhar com a minha namorada, hoje esposa, com animação de festa infantil. Mas, o plano Sunab dificultava a compra de bebidas para as festas, o que fez com eu abrisse uma pequena adega, do tamanho de uma garagem, o que acabou revelando o meu lado empreendedor"

3. O crescimento do seu negócio se baseou na acumulação de capital próprio:

"Sempre acreditei que a propaganda é a alma do negócio. Às vezes, o que faturávamos em uma semana, era investido em espaços na mídia."

4. O empreendedor não entrou num mercado existente para concorrer com empresas estabelecidas. Partindo de um conhecimento empírico do mercado e dos concorrentes, o empreendedor posicionou seu negócio num novo mercado, até então inexistente, realizando uma "destruição criativa":

"Como é este mercado hoje? Está aquecido? Quais são os consumidores? O que eles buscam?

Hoje, com os seus 35 milhões de cães e 15 milhões de gatos, o mercado brasileiro de pets é um gigante em números de bichos, ocupando o segundo lugar mundial do setor, atrás apenas dos Estados Unidos. Porém, ainda tem muito a crescer: é um setor que desde 2003 cresce a taxas entre 5 e 10% ao ano. Para se ter idéia, em 2007, os produtos para os bichinhos de estimação movimentaram a quantia de US$ 4,1 bilhões no país. É nada perto do faturamento mundial: só a rede de megalojas Pet Smart fatura isso sozinha por ano. Nossos consumidores são, antes de mais nada, pessoas que amam seus animais de estimação e os tratam verdadeiramente com o mesmo respeito que dão aos demais membros da família. Por esta razão estão sempre em busca do que de há de melhor para oferecer aos seus amiguinhos de quatro patas

Este mercado mudou muito nos últimos anos?

Aconteceram mudanças profundas nesse mercado nos últimos anos porque o consumidor também mudou muito, está muito mais bem informado e mais exigente. Outro fator que ajudou nessas transformações foi o relacionamento cada vez mais próximo e amoroso entre o dono e o seu animal de estimação. Hoje, o consumidor se preocupa muito mais com o mix de produtos dirigidos aos pets, sua qualidade, assim como também uma exigência maior quanto aos serviços prestados e a apresentação da loja.

O que vocês fazem para atender as necessidades desses consumidores?

Somos uma empresa de relacionamentos que procura estar o mais próximo possível dos nossos consumidores. Procuramos registrar cada cliente, criar eventos que promovam uma interação ainda maior entre esses consumidores e seus filhos, com seus pets. Chegamos a detalhes como montar um estúdio fotográfico dentro da própria loja para que o consumidor que quiser o serviço possa fazer um book especial do seu animal, com o mesmo capricho e profissionalismo com que são feitos os books das modelos profissionais. Para isso, contratamos o pioneiro fotógrafo especializado em pets. Então a nossa filosofia é esta – se o cliente pensou num serviço há duas hipóteses: ou nós já o temos implantado ou vamos implantá-lo no mais breve espaço de tempo.

Costumo dizer também que as lojas do Pet Center Marginal podem ser definidas com ‘Lojas de Relacionamentos’, pela maneira com que conduzimos o nosso negócio, sempre tendo como prioridade absoluta o relacionamento com o cliente. Parece mais um clichê comercial, dito muitas vezes com pouco ou nenhum sentido. Mas, se você passar duas ou três horas dentro de uma loja, vai entender perfeitamente o espírito disso. Não falamos em preço ou liquidação, dizemos sempre: 'venha passear na Pet Center Marginal', o que é um conceito absolutamente inovador em matéria de varejo. Não canso de repetir que conseguimos unir o charme do relacionamento da empresa pequena com as facilidades oferecidas por uma empresa grande."

5. O empreendedor observou suas competências e potencialidades, desenvolvendo-as de maneira deliberada com o intuito de se preparar para a atividade empreendedora, demonstrando que estar preparado através de um adequado planejamento e desenvolvimento de competências é um elemento decisivo para que se possa administrar a atividade empreendedora:

"Muitos empreendedores acabam se abatendo nesse momento. O que você
fez para superar essa crise?
( falência do negócio anterior em que não estava tão bem preparado e capitalizado)

Pode realmente ser muito traumática para muitos. Mas, dessa experiência, eu tirei a maior lição da minha vida: eu tinha um lado empreendedor muito forte, mas precisava desenvolver o meu lado de administrador. Daí, parti para fazer curso de Administração na Unip, seguido de um MBA de Varejo na Fia/Usp, seguidos de duas extensões internacionais de curta duração de Varejo Internacional, na Europa e Estados Unidos."

Empreender é um ato de iniciar e como tal é parte da atividade administrativa. No entanto, empreender quando entendido como a criação e gestão de um negócio próprio exige vocação, competência, um adequado planejamento, mas acima de tudo, capital. Donde se depreende que Kalecki refutou Dornellas, deixando-nos com o desafio de rever seu processo empreendedor, para que se possa efetivamente desvelar e propor um eficaz processo de criação e gestão de novas empresas.

Entrevista completa com o empreendedor Sérgio Zimerman no endereço:

http://www.catho.com.br/jcs/inputer_view.phtml?id=10760

quinta-feira, 14 de maio de 2009

O capital do empreendedor

Há algum tempo atrás tive a oportunidade de conhecer o trabalho do professor José Dornellas na área de empreendedorismo, participando de um evento realizado por ele na FIRJAN. O autor participa de seminários, promove palestras, cursos, escreve livros e desenvolve tecnologias digitais voltadas para a desafiadora tarefa de melhorar o ensino e a prática empreendedora no nosso país. Dornellas admite, logo na introdução do seu livro "Empreendedorismo: transformando idéias em negócios", que é preciso compreender melhor o empreendedorismo para que possamos buscar a sua efetividade prática.
Embora o professor esteja realizando uma grande contribuição à promoção e ao desenvolvimento do empreendedorismo no nosso país, em alguns momentos seus argumentos recorrem a imperativos comportamentais( vide o meu artigo A irrelevância do Pop Management), pecando por apelar para as emoções e a vaidade dos leitores, deixando-os com a falsa impressão de que precisam assumir um suposto "comportamento empreendedor" para alcançarem o sucesso em seus negócios. Sustenta seu argumento baseado em inadequada evidência empírica e elaboração teórica pouco consistente, mas bastante convincente, apontando a necessidade de que se cumpra burocraticamente o processo empreendedor que o autor apresenta, na ordem que ele apresenta, para se tornar um empreendedor de sucesso.
O seu processo começa com a identificação de oportunidades, prossegue com a elaboração do plano de negócios, passa pela busca por financiamento e culmina no gerenciamento do negócio. Ao propor seu processo empreendedor, Dornellas ignora que a questão financeira é parte decisiva da identificação da oportunidade e da própria elaboração do plano de negócios, devendo ser realizada ao mesmo tempo em que se busca viabilizar a oportunidade percebida.
Outro ponto complicado na sua elaboração é que o autor apresenta um estudo em que o Brasil se apresenta como o nono país em atividade empreendora ( percentual da população adulta dona do seu próprio negócio). No entanto os primeiros colocados são países pouco expressivos no cenário econômico internacional como Peru, Colômbia, Jamaica e Filipinas. Conclui-se, portanto, que ter uma alta atividade empreendora não significa que temos uma atividade empreendora eficaz e na medida adequada para a promoção do nosso desenvolvimento econômico e social.
A explicação que justifica estas considerações, podem ser encontradas na obra do economista Polonês Kalecki: Teoria da Dinâmica Econômica . Engenheiro de formação, ex- professor de economia em Cambridge, Oxford, secretário da ONU e um dos grandes influenciadores do pensamento econômico dos integrantes da CEPAL (comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), o autor concluiu que a capacidade empresarial é decisiva para definir a capacidade empreendora. E isto porque o risco inerente aos investimentos em novos negócios só podem ser assumidos por aqueles que possuem um volume de capital próprio e uma perspectiva de retorno sobre o investimento suficientes para atrair capital de risco:
"Muitos economistas supõem, pelo menos em suas teorias abstratas, um estado de democracia econômica onde qualquer pessoa com o dom da habilidade empresarial pode obter capital para inciar um negócio. Esse quadro das atividades do empresário 'puro' (empreendedor) não é, para pôr a coisa em termos modestos, realista. O pré-requisito mais importante para alguém se tornar empresário é a propriedade de capital" (KALECKI)
Dito isto, a relevância de se levantar recursos e sócios capitalistas para que se possa iniciar um novo negócio se mostra decisiva, ao contrário do que pensa o professor. Presentemente, muitas pequenas empresas de alta tecnologia e bastante capitalizadas fazem parte do processo de inovação e criação de valor empresarial. Trata-se do modelo de produção toyotista, onde várias empresas pequenas se articulam em trono de uma empresa mãe , comportando-se como se fossem uma única unidade empresarial extremamente inovadora e competitiva.
Portanto, um dos caminhos para o empreendorismo entendido como a criação de novos negócios é a associação de ex-funcionários com pesquisadores e empresas grandes em determinada cadeia produtiva. Outro caminho é buscar recursos para efetivar a criação de inovações produtivas em mercados novos, realizando a famosa "destruição criativa" de Joseph Schumpeter. Em ambos, é decisivo conhecer o mercado, a indústria, o negócio e o produto em si. É decisivo identificar barreiras à entrada, necessidades latentes dos consumidores e o seu valor. As competências centrais e demais recursos necessários para a criação, comunicação e entrega do valor proposto. E fazê-lo comparando com a sua possibilidade de reuní-los e alocá-los de maneira lucrativa e com seus riscos minimizados por um adequado montante de capital.
Infelizmente, empreender é mais complicado do que seguir cartilhas e manuais. Isso eu vivenciei quando tentei montar um negócio de brinquedos de madeira e acabei endividado e frustrado. E acho que isso inspirou Platão também:
"Há mais coisas entre o céu e a terra do que pregam a nossa vã literatura pop[Filosofia]"( versão original entre colchetes)

terça-feira, 5 de maio de 2009

O dia em que Ronaldo destronou Pelé

"Hoje, conhecedor das minhas sete vidas, já não sei mais se me exijo à altura do que desejo. Sei apenas que me espero na medida exata do que eu preciso."

Tom Coelho. Do preâmbulo de "Sete Vidas", seu livro mais recente.

O LEESE procura por heróis. Confessamos esta opção desde a nossa primeira postagem quando citamos Weber e outras influências como o movimento Pau-Brasil de O. Andrade. Pouco depois, analisamos e destacamos Gisele Bundchen, nossa musa. Elencamos algumas obras cujo conteúdo converge com o que propomos para uma literatura pop relevante. Nosso objetivo é encontrar referências que afetem nossa motivação, dotando-nos da autoconfiança necessária para que possamos buscar a nossa felicidade e qualidade de vida no trabalho e nas nossas outras seis vidas, cotidianamente, "na medida exata do que precisamos".

No entanto, parece-me importante discorrer com pouco mais de profundidade sobre este herói em sentido "sóbrio da palavra" (MAX WEBER, citado na primeira postagem) que tanto procuramos. Não vou citar os arquéticos de Jung nem mesmo qualquer outro intelectual que tenha tido contato na universidade. Basear-me-ei num craque da bola, num craque da dramarturgia e em dois craques da literatura pop. Estes heróis serão investigados e, nas suas obras, desvelaremos o tal heroísmo sóbrio, se é que o mesmo existe.

Nélson Rodriguez será importante não apenas por ser um dos nossos maiores dramaturgos e cronistas esportivos, mas principalmente por ter-nos revelado a majestade de Pelé. No Brasil que se modernizava e tentava se livrar do estigma do subdesenvolvimento, de país agrário, escravagista e incivilizado; Nélson Rodriguez percebeu na elegância e coragem do Rei a referência necessária para que pudéssemos superar nosso "complexo de vira-latas". O Herói de Nélson Rodriguez, no entanto, se tornou "unanimidade burra", o ícone do inatingível e deixou de ser uma referência prática. A sua perfeição o tornara sobre-humano. A ponto do próprio Pelé passar a distinguir o Édson Arantes do Nascimento, o homem, do mito criado em torno de si na figura do Rei do Futebol.

Tom Coelho, que conheci prestando concurso para a PETROBRAS, ocasião em que seu texto foi usado para as questões da prova de Português, escreveu um bom artigo sobre o heroísmo: " Sobre heróis e mitos". A partir dele e do livro de Augusto Cury "Nunca desista dos seus sonhos", pode-se perceber que o herói, o mito, para que seja analisado sobriamente, tornando-se uma referência inspiradora, precisa ser martelado como fez Nietzche. Precisamos destruir suas estátuas de bronze, tinta e papel para observar como eles se constituíram. O quanto pereceram, sofreram e erraram até que encontraram o caminho que os conduziriam à alegria, às vitórias, ao que entendemos atualmente como "sucesso". Até que alcançaram a sabedoria necessária para os conduzir à felicidade, à perfeição própria deste herói.

E neste exato momento acrescentamos Ronaldo. Confesso que muito custou a constatação que farei. Ronaldo é um jogador dentuço, imperfeito, que errou em diversos momentos da carreira e ainda sempre foi apontado como o sucessor de Pelé. Resisti o quanto pude a este sacrilégio, mas não posso deixar de afirmar que entre a mitologia morta que existe em torno de Pelé e os feitos do Ronaldo, os deste último já o credenciam como nosso maior herói. A pátria de chuteiras clama por Ronaldo.

E Ronaldo realmente fez por merecer. Superou diversos momentos de dificuldade. Duas cirurgias no joelho, dois casamentos, diversos romances conturbados... Meses fora de forma e sem jogar. Quando tudo parecia dar errado, deu certo. Ronaldo voltou a jogar, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima, como um legítimo vira-lata!

O mesmo vira-lata que tentaram destruir, estigmatizar. Quando deram sua carreira por encerrada, ele resistiu e acreditou quando a maioria o condenou e abandonou. Superou os piores prognósticos. Agiu na verdade como nós fazemos cotidianamente quando resistimos e continuamos buscando nossa felicidade mesmo tendo que superar as mazelas advindas de 500 anos de exclusão social, intolerância, corrupção, serviços públicos mal ofertados, falta de incentivo ao nosso desenvolvimento econômico, social, pessoal e todos os interditos que nossa sociedade nos oferece como desafios que precisam ser superados.

Ronaldinho é o fenômeno. O herói que destronou Pelé no dia em que lhe mostrou o heroísmo próprio de cada brasileiro, nos fazendo orgulhar por ser o que somos. Não precisamos ser o que os outros acham que devemos ser, mas aquilo que nós percebemos que precisamos ser. Este é o caminho revelado por Ronaldo, o ídolo do nosso laboratório!
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